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Opinião

João Sousa, CEO JPS Group

A construção ainda sofre com o impacto da pandemia e da guerra?

29 de setembro de 2023

A construção ainda sofre com o impacto da pandemia e da guerra?

Parte III: O aumento dos preços das matérias-primas, energia e materiais de construção

A partir de 2021 e como consequência da pandemia, os custos no setor da construção em Portugal começaram a subir. Os constrangimentos nas cadeias de distribuição internacional contribuíram para que muitos dos materiais importados escasseassem e tivessem ruturas de stock, o que os tornou mais caros. A guerra na Ucrânia, aliada ao aumento dos preços da energia e dos combustíveis, inflacionou os preços das matérias-primas e dos materiais de construção. Como consequência, registou-se uma escassez de matérias-primas para o setor da construção, tais como: madeira, aço, alumínio, cobre, vidro, cimento, isolamento térmico, produtos eletrónicos, entre outros. Segundo a AICCOPN, através de informação recolhida junto das empresas do segmento das obras privadas, no início deste ano, 83% identificam como principal constrangimento da atividade o aumento dos preços das matérias-primas, energia e materiais de construção.

Conforme os dados do INE, em 2022 registou-se uma subida muito significativa dos materiais de construção, nomeadamente, produtos cerâmicos, cimento, betão, madeira e derivados, tubos de PVC e o consumo de produtos energéticos, com aumentos de custos superiores a 10%. No início deste ano inverteu-se esta tendência e em julho os preços de alguns dos materiais desceram 1,5%. No entanto, outros produtos registaram aumentos homólogos de cerca de 10%, no cimento, no betão pronto e nas tintas, nos primários, nas subcapas e nos vernizes. Também os custos da mão de obra aumentaram 12,3% em janeiro deste ano, como consequência do aumento do salário mínimo, situando-se em julho nos 7,7%. Em 2022 e pelo segundo ano consecutivo, o índice de custos de construção de habitação nova, que inclui o preço dos materiais e o preço da mão de obra, apresentou um aumento no ritmo de crescimento, com uma taxa de variação média anual de 12,2%, o que contribuiu para o forte agravamento do índice dos custos de construção nova.

Os preços da energia na União Europeia atingiram níveis recorde em 2022. O aumento, associado à subida dos preços grossistas da energia mundial, começou em 2021, após a pandemia de COVID-19 e do aumento da procura internacional. A invasão russa à Ucrânia e as condições climáticas agravam o problema. Este aumento dos preços da energia, contribuiu para o aumento dos custos de produção e uma inflação nos custos de construção, o que se reflete no aumento do preço final das casas para o consumidor.

Perante este cenário de inflação e aumento de preços, seria desejável um abrandamento destes custos, bem como a estabilização das cadeias de distribuição, que ainda causam constrangimentos no fornecimento de materiais ao setor. As empresas do setor de construção são confrontadas diariamente com oscilações de preços, escassez de produtos ou prazos de fornecimento mais longos. Estes impactos exigem um grande esforço financeiro por parte das empresas de construção, visto que atrasam a execução das obras e a colocação de casas novas no mercado.

Ao longo de três artigos falei sobre temas cruciais e com grande impacto na atividade diária do setor da construção e do imobiliário, que contribuem para a subida exponencial dos preços das casas novas e atrasam significativamente a colocação de nova oferta no mercado.

Durante a pandemia, o setor da construção foi dos que conseguiu dar melhor resposta, mostrando ser resiliente, mas com a guerra na Ucrânia e as suas consequências, principalmente para a Europa, afetaram o setor. Nomeadamente, as ruturas de stock devida à interrupção nas cadeias de abastecimento, que atrasam as entregas de materiais de construção; a subida dos preços dos materiais de construção, das matérias-primas, da energia, dos combustíveis, bem como o aumento do custo da mão de obra têm um impacto significativo no aumento dos preços das casas, no desenvolvimento de projetos imobiliários, afetando a atividade de construtores e promotores imobiliários.

Perante o atual cenário macroeconómico de incerteza, acredito que o setor manterá a sua resiliência e consistência, como tem demonstrado ao longo dos anos, porque continua a existir investimento e existe uma grande procura, maioritariamente nacional, mas também procura externa impulsionada pelo turismo. É esta resiliência da forte procura e a falta de oferta de casas, que provoca este desequilíbrio no mercado, e para resolver o problema estrutural da crise da habitação, que se agravou nos últimos quinze anos, é imprescindível ter uma visão estratégica de longo prazo, incentivos e políticas governamentais e municipais coerentes, para promover a dinâmica do mercado e aumentar a oferta de imóveis para habitação.

João Sousa

CEO da JPS GROUP

*Texto escrito com novo Acordo Ortográfico

Artigo de Opinião com três partes:

Parte I: A interrupção nas cadeias de abastecimento e a escassez de materiais de construção

Parte II: A falta de mão de obra qualificada

Parte III: O aumento dos preços das matérias-primas, energia e materiais de construção