
Moscow Izmailovo hotel complex: foto de Artem Svetlov em wikipedia
Três megahotéis europeus que desafiam o luxo com escala, história e preços acessíveis
Enquanto a hotelaria europeia se orienta cada vez mais para o luxo, o boutique hotel e a experiência personalizada, três gigantes continuam a provar que escala, eficiência e localização podem ser um modelo igualmente vencedor. Em Moscovo, Londres e Berlim, o Izmailovo Hotel Complex, o Royal National Hotel e o Estrel Berlin representam três formas distintas — mas bem-sucedidas — de manter vivos os grandes hotéis urbanos na Europa do século XXI.
Izmailovo Hotel Complex – Moscovo
Com cerca de 7.500 quartos, o Izmailovo Hotel Complex é o maior complexo hoteleiro da Europa e um dos maiores do mundo. Foi construído para os Jogos Olímpicos de Moscovo de 1980, quando a União Soviética precisava de alojar, rapidamente, milhares de atletas, delegações e jornalistas internacionais.
O complexo é composto por quatro edifícios — Alfa, Beta, Vega e Gamma-Delta — erguidos segundo uma lógica funcionalista soviética: escala monumental, repetição, eficiência e rapidez de construção. O luxo nunca foi prioridade.
Após o colapso da URSS, o Izmailovo entrou em declínio, mas foi sendo progressivamente modernizado a partir dos anos 2000. Hoje, funciona como um ecossistema hoteleiro de grande escala, muito utilizado por grupos turísticos, congressos, eventos desportivos e turismo doméstico russo.
O seu modelo económico assenta em margens baixas por quarto, mas ocupação constante, custos diluídos por milhares de unidades e receitas complementares (eventos, restauração, lojas). Os activos estão totalmente amortizados há décadas, permitindo tarifas muito competitivas.
Durante décadas, o complexo pertenceu integralmente ao Estado soviético. Após o colapso da URSS, os diferentes edifícios — Alfa, Beta, Gamma e Delta — foram privatizados de forma autónoma, passando para sociedades anónimas distintas, com participações de antigos gestores, entidades públicas e investidores privados. Não houve uma alienação única a um grande grupo hoteleiro internacional.
Atualmente, cada edifício é explorado por operadores privados independentes. Embora algumas destas estruturas mantenham ligações históricas ao Estado russo, não se tratam de hotéis públicos nem estão sob gestão governamental, funcionando segundo uma lógica comercial e com autonomia de gestão.
Preço indicativo de quarto duplo: cerca de 30 € a 35 € por noite.
Royal National Hotel: Londres em modo funcional
No coração de Bloomsbury, a poucos passos do British Museum e de várias universidades, o Royal National é o maior hotel de Londres em número de quartos, com cerca de 1.630 unidades.
Inaugurado no final dos anos 1960, nasceu para responder à escassez de alojamento provocada pelo crescimento do turismo urbano, dos congressos e do ensino internacional no pós-guerra. Desde então, manteve-se sob a mesma gestão — o Imperial London Hotels — algo raro num mercado tão volátil como o londrino.
Nunca tentou competir no segmento premium. O seu trunfo é outro: localização central irrepetível, produto padronizado, custos controlados e procura permanente. É um hotel-base para grupos turísticos, escolas, universidades, city breaks e viagens institucionais.
O Royal National mostra que, em cidades globais como Londres, capacidade e boa localização continuam a ser uma fórmula sólida.
Preço indicativo de quarto duplo: entre 56 € e 110 € por noite, consoante a época.
Estrel Berlin: o megahotel como plataforma de negócios
Aberto em 1994, poucos anos após a reunificação alemã, o Estrel Berlin é hoje o maior hotel da Alemanha, com mais de 1.100 quartos, e um dos casos mais bem-sucedidos de hotelaria privada integrada na Europa.
Localizado em Neukölln, fora do circuito turístico clássico, o Estrel foi concebido desde a origem como um campus urbano multifuncional: hotel, centro de congressos privado (Estrel Convention Center), teatro próprio (Estrel Showtheater), restauração e eventos corporativos.
O seu modelo económico é fortemente orientado para o mercado MICE (Meetings, Incentives, Conferences & Exhibitions), garantindo contratos fechados com antecedência, receitas previsíveis e menor dependência do turismo sazonal.
Sendo um projecto 100% privado e de gestão familiar, o Estrel evita royalties de grandes cadeias, reinveste lucros no activo e planeia com horizontes de décadas — como prova o desenvolvimento da futura Estrel Tower.
Preço indicativo de quarto duplo: entre 74 € e 103 € por noite.
Três modelos, uma mesma lógica: escala como vantagem
Apesar das diferenças culturais e históricas, os três hotéis partilham uma mesma filosofia: não competem em luxo; apostam em escala, eficiência e ocupação elevada; diluem custos fixos por milhares de quartos; atraem públicos estáveis e menos sensíveis a crises.
Num tempo dominado por hotéis boutique e experiências personalizadas, estes megahotéis lembram que a hotelaria de massa bem gerida continua a ter lugar — e relevância — nas grandes cidades europeias.
São, cada um à sua maneira, monumentos vivos da história urbana, económica e turística da Europa contemporânea.

























