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Rui Castilho Dias, Manager em Administração Pública e Territórios na Minsait em Portugal (Indra Group)

Rui Castilho Dias, Manager em Administração Pública e Territórios na Minsait em Portugal (Indra Group)

Cidades Inteligentes: Tecnologia ao serviço do valor público

14 de janeiro de 2026

As cidades enfrentam hoje um ponto de viragem decisivo. Nunca se recolheram tantos dados, nunca se instalaram tantos sensores, nunca houve tantas plataformas e aplicações “inteligentes”. No entanto, a verdadeira transformação urbana não se mede pela quantidade de tecnologia implementada, mas sim pela capacidade de essa tecnologia gerar valor tangível na vida das pessoas. A maturidade das cidades depende não exclusivamente do que conseguem digitalizar, mas da forma como utilizam informação para antecipar necessidades, melhorar a coordenação pública e promover o bem-estar coletivo.

É neste contexto que o conceito das Cidades Inteligentes 5.0 ganha relevância. Mais do que uma evolução tecnológica, representa uma mudança de paradigma: de cidades que apenas “conectam” para cidades que realmente aprendem, atuam, integram e cuidam. Uma cidade inteligente não é aquela que recolhe mais dados, mas a que os transforma em inteligência operacional capaz de melhorar a vida quotidiana, seja na eficiência energética, na mobilidade, na segurança urbana, na gestão ambiental ou na inclusão digital.

Esta mudança de paradigma não é uma abstração, pois projetos em curso demostram que, quando existe uma visão integrada e centrada nas pessoas, os resultados tornam-se mensuráveis. Em contextos onde foram implementados centros de gestão urbana unificados, verificaram-se reduções consistentes nos tempos de resposta operacional e maior capacidade de antecipar incidentes. Em iniciativas que apostam na análise avançada de dados, é possível otimizar consumos, prever padrões de utilização de serviços e apoiar decisões estratégicas, antes inacessíveis. Em programas de literacia e inclusão digital, cresce substancialmente a utilização dos serviços públicos digitais e, com isso, a confiança dos cidadãos.

Mas esta evolução só se concretiza quando três elementos trabalham em conjunto: uma gestão responsável e eficaz dos dados urbanos, uma coordenação institucional ágil entre diferentes serviços e uma aposta clara na capacitação digital das populações. O primeiro garante que a informação é segura, interoperável e útil; o segundo evita duplicações, reduz silos administrativos e permite que a cidade funcione como uma orquestra; o terceiro assegura que o progresso tecnológico não aprofunda desigualdades, mas antes as reduz.

Esta visão deve fazer parte de um compromisso diário com o setor público, com as empresas a trabalharem para que as cidades possam beneficiar de soluções que unificam dados, modelos analíticos que apoiam decisões baseadas em evidência e ecossistemas operacionais que permitam responder de forma coordenada, eficiente e transparente. Acredito que a tecnologia deve ser um catalisador de equidade e sustentabilidade, e que qualquer transformação só se completa quando é sentida por todos, seja para simplificar a vida aos cidadãos, produzir conteúdos para apoiar decisões com impacto territorial, promover a competitividade económica ou aproximar comunidades.

A cidade verdadeiramente inteligente é, por isso, aquela que coloca a tecnologia ao serviço de um propósito comum. Uma cidade capaz de reduzir desigualdades, reforçar a resiliência climática, promover a inclusão digital, antecipar problemas e criar novas oportunidades de participação e bem-estar. É essa visão, simultaneamente tecnológica e humana, que deve orientar os próximos anos e é esse caminho que, em conjunto com os territórios, devemos continuar a construir.

Rui Castilho Dias

Manager em Administração Pública e Territórios na Minsait em Portugal (Indra Group)

*Texto escrito com novo Acordo Ortográfico