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Arquivo Nacional do Som, em Mafra

Arquivo Nacional do Som, em Mafra

Mafra recebe o primeiro Arquivo Nacional do Som em Portugal num investimento de quatro milhões

16 de junho de 2026

Portugal prepara-se para dar um passo inédito na preservação do seu património cultural imaterial com a criação do Arquivo Nacional do Som (ANS), uma infraestrutura única no país que nascerá em Mafra e que será dedicada à conservação, estudo e divulgação da memória sonora nacional.

Projectado pelo Atelier Carvalho Araújo e financiado em quatro milhões de euros através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o equipamento permitirá preservar vozes, músicas, paisagens sonoras e registos históricos que, até agora, permaneciam dispersos por suportes frágeis e vulneráveis ao tempo.

A nova infraestrutura vem colmatar uma lacuna histórica no panorama cultural português, aproximando o país de exemplos já consolidados em várias nações europeias, como Alemanha, Reino Unido e França, que há décadas investem em instituições especializadas na preservação do património sonoro.

O projecto arquitectónico, seleccionado através de concurso público lançado em Janeiro de 2024, distingue-se pela sua abordagem contemporânea e pela integração harmoniosa num território classificado como Património Mundial pela UNESCO.


Arquivo Nacional do Som, em Mafra

A proposta do Atelier Carvalho Araújo assenta em três conceitos estruturantes: a "caixa-forte", enquanto espaço de silêncio e proteção destinado à salvaguarda dos registos sonoros; a "oficina", concebida como um local de trabalho técnico e artesanal sobre o som; e a "casa", que procura integrar o edifício no tecido urbano e reforçar a ligação visual ao Palácio Nacional de Mafra.

Mais do que um edifício, o Arquivo Nacional do Som pretende afirmar-se como uma nova infraestrutura cultural ao serviço da investigação, da criação artística e da comunidade. O equipamento contará com laboratórios de áudio, depósitos de elevada segurança, oficinas de conservação, serviços educativos e áreas de gestão especializadas.

O projecto foi também desenhado para acompanhar as necessidades futuras, integrando capacidade de expansão e um anfiteatro exterior que permitirá acolher iniciativas culturais e aproximar o arquivo da população.


Arquivo Nacional do Som, em Mafra

A localização em Mafra surge como uma mais-valia estratégica, potenciando a ligação entre património, turismo cultural e investigação internacional. A ambição passa igualmente por transformar o ANS numa referência para todo o espaço lusófono, fortalecendo as ligações com países como Brasil, Angola, Moçambique e Cabo Verde, onde o património sonoro português assume uma relevância histórica e identitária.

A dimensão digital ocupa igualmente um papel central na iniciativa. A futura estrutura permitirá a digitalização dos acervos e a consulta remota dos conteúdos, democratizando o acesso à memória sonora nacional sem comprometer a preservação física dos registos originais.

Para o Atelier Carvalho Araújo, a essência do projecto resume-se numa ideia simples: "Em primeiro lugar o silêncio, ou a presença dos sons que não conseguimos ouvir."

Essa visão traduz-se numa arquitectura concebida para proteger e valorizar o património. A estrutura em betão assegura elevados níveis de isolamento e protecção acústica, enquanto a fachada ventilada em pedra branca prolonga visualmente o eixo do Palácio Nacional de Mafra. Na fachada posterior, um conjunto de elementos metálicos leves funciona como um véu que filtra a luz natural e protege os espaços interiores.


Arquivo Nacional do Som, em Mafra

Um dos elementos mais distintivos do projecto será, contudo, um equipamento sonoro exterior que funcionará como um "sino contemporâneo". Sempre que um novo registo for concluído e integrado no arquivo, um breve excerto sonoro será reproduzido para o exterior, tornando audível, para quem passa na rua, o trabalho silencioso de preservação da memória coletiva.

Com este gesto simbólico, o Arquivo Nacional do Som pretende afirmar-se não apenas como um local de conservação, mas como um organismo vivo, aberto à comunidade e comprometido em garantir que a memória sonora de Portugal permanece acessível às gerações futuras.