
Arquivo Nacional do Som, em Mafra
Mafra recebe o primeiro Arquivo Nacional do Som em Portugal num investimento de quatro milhões
Portugal prepara-se para dar um passo inédito na preservação do seu património cultural imaterial com a criação do Arquivo Nacional do Som (ANS), uma infraestrutura única no país que nascerá em Mafra e que será dedicada à conservação, estudo e divulgação da memória sonora nacional.
Projectado pelo Atelier Carvalho Araújo e financiado em quatro milhões de euros através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o equipamento permitirá preservar vozes, músicas, paisagens sonoras e registos históricos que, até agora, permaneciam dispersos por suportes frágeis e vulneráveis ao tempo.
A nova infraestrutura vem colmatar uma lacuna histórica no panorama cultural português, aproximando o país de exemplos já consolidados em várias nações europeias, como Alemanha, Reino Unido e França, que há décadas investem em instituições especializadas na preservação do património sonoro.
O projecto arquitectónico, seleccionado através de concurso público lançado em Janeiro de 2024, distingue-se pela sua abordagem contemporânea e pela integração harmoniosa num território classificado como Património Mundial pela UNESCO.
A proposta do Atelier Carvalho Araújo assenta em três conceitos estruturantes: a "caixa-forte", enquanto espaço de silêncio e proteção destinado à salvaguarda dos registos sonoros; a "oficina", concebida como um local de trabalho técnico e artesanal sobre o som; e a "casa", que procura integrar o edifício no tecido urbano e reforçar a ligação visual ao Palácio Nacional de Mafra.
Mais do que um edifício, o Arquivo Nacional do Som pretende afirmar-se como uma nova infraestrutura cultural ao serviço da investigação, da criação artística e da comunidade. O equipamento contará com laboratórios de áudio, depósitos de elevada segurança, oficinas de conservação, serviços educativos e áreas de gestão especializadas.
O projecto foi também desenhado para acompanhar as necessidades futuras, integrando capacidade de expansão e um anfiteatro exterior que permitirá acolher iniciativas culturais e aproximar o arquivo da população.
A localização em Mafra surge como uma mais-valia estratégica, potenciando a ligação entre património, turismo cultural e investigação internacional. A ambição passa igualmente por transformar o ANS numa referência para todo o espaço lusófono, fortalecendo as ligações com países como Brasil, Angola, Moçambique e Cabo Verde, onde o património sonoro português assume uma relevância histórica e identitária.
A dimensão digital ocupa igualmente um papel central na iniciativa. A futura estrutura permitirá a digitalização dos acervos e a consulta remota dos conteúdos, democratizando o acesso à memória sonora nacional sem comprometer a preservação física dos registos originais.
Para o Atelier Carvalho Araújo, a essência do projecto resume-se numa ideia simples: "Em primeiro lugar o silêncio, ou a presença dos sons que não conseguimos ouvir."
Essa visão traduz-se numa arquitectura concebida para proteger e valorizar o património. A estrutura em betão assegura elevados níveis de isolamento e protecção acústica, enquanto a fachada ventilada em pedra branca prolonga visualmente o eixo do Palácio Nacional de Mafra. Na fachada posterior, um conjunto de elementos metálicos leves funciona como um véu que filtra a luz natural e protege os espaços interiores.
Um dos elementos mais distintivos do projecto será, contudo, um equipamento sonoro exterior que funcionará como um "sino contemporâneo". Sempre que um novo registo for concluído e integrado no arquivo, um breve excerto sonoro será reproduzido para o exterior, tornando audível, para quem passa na rua, o trabalho silencioso de preservação da memória coletiva.
Com este gesto simbólico, o Arquivo Nacional do Som pretende afirmar-se não apenas como um local de conservação, mas como um organismo vivo, aberto à comunidade e comprometido em garantir que a memória sonora de Portugal permanece acessível às gerações futuras.


















