Logo Diário Imobiliário
CONSTRUÍMOS
NOTÍCIA
Brain PowerHaierJPS Group 2024Porta da Frente
Actualidade
Dois terços do défice de construção habitacional na Europa têm origem demográfica, aponta análise da Euroconstruct

 

Dois terços do défice de construção habitacional na Europa têm origem demográfica, aponta análise da Euroconstruct

7 de setembro de 2026


Um artigo assinado por Martin Kyed, do Prognosecenteret, e divulgado no âmbito da rede Euroconstruct, conclui que cerca de dois terços das diferenças entre países europeus no valor de produção per capita da construção residencial em 2026 podem ser explicados por diferenças no crescimento populacional entre 2022 e 2025.

Construção residencial como termómetro da economia

Segundo o autor, a construção é um dos setores mais sensíveis ao ciclo económico, sendo a construção residencial nova o segmento mais volátil dentro da indústria. O artigo recorda que, durante a crise financeira, o PIB do grupo EC-19 caiu 1,4% entre 2007 e 2010, enquanto a produção total de construção recuou 20,3% e a construção residencial nova caiu 48,7%. Um padrão semelhante repetiu-se entre 2022 e 2024, com um choque negativo de oferta: a produção residencial nova caiu 17,2% e a construção total 2,5%, enquanto o PIB manteve um crescimento modesto de 1,4% ao longo dos dois anos.

Para Kyed, esta sensibilidade explica por que razão os economistas tendem a concentrar-se sobretudo em fatores macroeconómicos de curto prazo — como taxas de juro, preços da habitação e custos de construção — para analisar a atividade do setor, negligenciando muitas vezes os fatores estruturais, nomeadamente o crescimento populacional.


Foto de jcomp em magnific


O peso do crescimento populacional

Segundo o artigo, o crescimento populacional é um dos parâmetros mais intuitivos para explicar o aumento das necessidades habitacionais, e a análise da Euroconstruct confirma esta relação: aproximadamente dois terços das diferenças entre países no valor de produção per capita em 2026 são atribuíveis a diferenças no crescimento populacional entre 2022 e 2025.

O autor exemplifica com o caso da Chéquia, que apresenta um nível de atividade na construção residencial nova muito superior ao dos restantes três países da Europa de Leste incluídos no grupo EC-19, refletindo o efeito de ter crescimento populacional em vez de uma população em declínio — o nível per capita na Chéquia é 2,5 vezes superior ao da Hungria. Outro exemplo apontado é a comparação entre França e Espanha: apesar de serem países vizinhos e de dimensão semelhante, tiveram taxas de crescimento populacional muito distintas, o que se traduz diretamente nos níveis de produção — em 2026, Espanha apresenta um nível de produção per capita na construção residencial nova 140% superior ao de França.

Porque é a demografia negligenciada nas previsões

O artigo explica que a natureza estrutural do crescimento populacional — que raramente sofre alterações súbitas, já que taxas de natalidade, mortalidade e mesmo a migração líquida de trabalhadores mostram elevada estabilidade no curto prazo — faz com que este indicador seja pouco útil para prever variações de atividade de um ano para o outro, que é o que mais preocupa promotores, fornecedores de materiais e instituições financeiras do setor. Além disso, quando ocorrem alterações súbitas na população — como um fluxo de imigração causado por uma guerra —, estas surgem tipicamente como choques imprevisíveis, difíceis de incorporar em modelos econométricos antes de acontecerem.

Implicações para as políticas públicas

Segundo Kyed, nenhum interveniente do setor da construção deveria ignorar o efeito do crescimento populacional no valor de produção. O artigo sublinha que o nível de mercado depende de fatores como a natalidade e a esperança de vida, pelo que políticas de apoio à família e políticas de saúde acabam por condicionar, indiretamente, o nível de construção em cada país.

O autor aponta ainda que políticas de mercado de trabalho restritivas, que dificultam a entrada ou permanência de trabalhadores estrangeiros, reduzem a necessidade estrutural de nova habitação e podem limitar a oferta de mão-de-obra para a construção, com um efeito negativo sobre o setor. O mesmo se aplica a políticas de remigração, que Kyed descreve como um dos temas políticos mais controversos na Europa da década de 2020, com implicações diretas para o crescimento populacional e, por consequência, para a procura habitacional.



Sobre o autor e a Euroconstruct

Martin Kyed é economista dinamarquês e economista-chefe do Prognosecenteret, empresa especializada na análise e previsão dos mercados da construção e imobiliário nos países nórdicos. Mestre em Economia desde 2006, passou por instituições como a Copenhagen Economics e o Ministério das Finanças da Dinamarca. Exerce funções de economista-chefe desde 2015 e integra o Prognosecenteret desde agosto de 2023

A Euroconstruct é uma rede europeia independente de institutos de investigação e análise económica especializada no setor da construção, criada em 1975, que reúne instituições de vários países europeus, incluindo Portugal. A rede produz regularmente previsões sobre segmentos como construção residencial, construção não residencial e engenharia civil, analisando indicadores como investimento, produção, novas construções e reabilitação. Em Portugal, a Euroconstruct é representada pelo ITIC — Instituto Técnico para a Indústria da Construção.