
Construção
Construção cresce acima da economia portuguesa, mas licenciamento e obras públicas recuam
A actividade da construção manteve uma trajectória de crescimento no arranque de 2026, acompanhando o desempenho positivo da economia portuguesa e reforçando o seu contributo para o investimento nacional. No primeiro trimestre do ano, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2,3% em termos homólogos, impulsionado sobretudo pela procura interna, nomeadamente pelo investimento e pelo consumo privado, indica a Conjuntura da Construção da AICCOPN.
Neste contexto, o Investimento em Construção registou um aumento de 2,6%, superando o crescimento da economia no seu conjunto. Também o Valor Acrescentado Bruto (VAB) do setor avançou 2%, confirmando o dinamismo da actividade construtiva.
Apesar destes indicadores positivos, o sector continua a enfrentar alguns sinais de desaceleração, particularmente ao nível do licenciamento municipal e das obras públicas.
Licenciamento regista quebra superior a 11%
Os dados relativos ao licenciamento revelam uma redução da actividade projectada para os próximos anos. No primeiro trimestre de 2026, o número total de obras de edificação e demolição licenciadas diminuiu 11,8% face ao período homólogo.
A área total licenciada também apresentou uma evolução negativa, com uma redução de 14,1% nos edifícios habitacionais e de 7% nos edifícios não residenciais. No conjunto, a quebra correspondeu a menos 376.658 metros quadrados licenciados em comparação com os primeiros três meses de 2025.
Esta tendência sugere uma moderação do pipeline de novos projectos, apesar da resiliência demonstrada pela actividade actualmente em execução.
Custos de construção continuam a aumentar
A pressão sobre os custos de produção mantém-se como um dos principais desafios do sector.
Em Março de 2026, o Índice de Custos de Construção de Habitação Nova registou uma subida homóloga de 5,8%, impulsionada pelo aumento dos preços dos materiais de construção e pela valorização da mão-de-obra.
Os materiais registaram um acréscimo de 3,7%, enquanto os custos associados ao trabalho cresceram 8,2%, reflectindo as dificuldades persistentes na contratação de profissionais qualificados e a pressão salarial existente no mercado.
Consumo de cimento mantém tendência positiva
Em contrapartida, o consumo de cimento voltou a apresentar sinais de recuperação.
Nos primeiros quatro meses de 2026, o consumo acumulado cresceu 6,3% face ao mesmo período do ano anterior, registando o segundo mês consecutivo de evolução positiva e reforçando os indicadores de atividade do setor.
O desempenho deste indicador é geralmente interpretado como um reflexo directo da execução de obras e do ritmo da construção.
Crédito às empresas da construção atinge máximo desde 2020
Outro dos indicadores que evidencia a confiança no setor é o financiamento empresarial.
Segundo dados do Banco de Portugal, o stock de crédito concedido às empresas da construção aumentou 12,1% em abril, em comparação com o mesmo mês do ano anterior, ultrapassando os 7,2 mil milhões de euros.
Este valor representa o nível mais elevado desde Dezembro de 2020, refletindo uma maior disponibilidade de financiamento e uma recuperação da actividade empresarial.
Obras públicas mantêm trajectória de contração
Ao contrário dos restantes indicadores, o mercado das obras públicas continua a revelar sinais de enfraquecimento.
Em abril, o montante dos concursos públicos promovidos totalizou 2.385 milhões de euros, representando uma redução homóloga de 44%.
A contratação pública efetivamente concretizada também registou uma quebra significativa. O valor dos contratos celebrados ascendeu a 1.336 milhões de euros, menos 25% do que no mesmo período do ano anterior.
A diminuição da actividade neste segmento contrasta com o desempenho da construção privada e continua a ser apontada pelos agentes do sector como um factor de preocupação para a evolução futura do mercado.
Sector mantém resiliência apesar dos desafios
Os dados do primeiro trimestre e do início do segundo trimestre de 2026 revelam um sector da construção resiliente, sustentado pelo crescimento do investimento, pelo aumento do consumo de cimento e pela expansão do crédito às empresas.
No entanto, a redução do licenciamento e a forte contração das obras públicas evidenciam desafios que poderão condicionar o ritmo de crescimento nos próximos anos, numa altura em que o sector continua a desempenhar um papel central na resposta às necessidades de habitação, reabilitação urbana e desenvolvimento de infraestruturas em Portugal.















