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Parque Urbano de Gondomar mostra como as cidades podem responder ao aquecimento global

Parque Urbano de Gondomar. Foto © Ivo Tavares Studio

Parque Urbano de Gondomar mostra como as cidades podem responder ao aquecimento global

4 de novembro de 2026

A criação e ampliação de espaços verdes tornou-se uma das respostas mais importantes das cidades ao aumento das temperaturas e à frequência das ondas de calor. O Parque Urbano de Gondomar, com 24 mil metros quadrados e cerca de 800 árvores, é um exemplo de recuperação de solo urbano para utilização pública. Mas que dimensão está a ganhar esta transformação nas cidades portuguesas?

O Parque Urbano de Gondomar, no centro de São Cosme, foi recentemente destacado pela plataforma internacional de arquitetura ArchDaily, que publicou, em outubro de 2026, uma apresentação do projeto desenvolvido pelo atelier Paulo Merlini arquitetos, com intervenção paisagística da P4 – Artes e Técnicas da Paisagem.

Inaugurado em outubro de 2022, o parque transformou um terreno sem utilização urbana definida num espaço de lazer, convívio e circulação pedonal. O investimento global ultrapassou os cinco milhões de euros, incluindo a aquisição de terrenos por expropriação.



Imagem Paulo Merlini Arquitetos



Com mais de dois hectares, o equipamento reúne zonas arborizadas, percursos pedonais, espaços infantis, equipamentos desportivos, parque canino, anfiteatro e lagos. O projeto integra ainda bacias de retenção de águas pluviais, destinadas a reduzir a pressão sobre a rede de drenagem durante períodos de precipitação intensa.

A plantação de cerca de 800 árvores, de diferentes espécies, constitui uma das componentes ambientais mais relevantes da intervenção. A vegetação proporciona sombra, favorece a biodiversidade e contribui para moderar as temperaturas locais.

O parque foi distinguido, em março de 2025, com o Grande Prémio da Rede de Cidades e Vilas que Caminham e com o primeiro prémio na categoria de Desenho de Novo Espaço Público.



Parque Urbano de Gondomar. Foto © Ivo Tavares Studio



Verde urbano passou a ser uma necessidade climática

O caso de Gondomar insere-se num desafio que ultrapassa a criação de jardins e equipamentos de lazer. O aumento das temperaturas coloca as cidades perante a necessidade de adaptar ruas, praças e bairros a períodos de calor mais intenso e prolongado.

A concentração de edifícios, as superfícies asfaltadas e a escassez de sombra contribuem para o fenómeno das ilhas de calor urbanas, que faz com que determinadas zonas das cidades registem temperaturas superiores às das áreas envolventes.

A arborização e a recuperação de solos permeáveis podem reduzir esse efeito. Segundo o Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia, um estudo que abrangeu mais de 600 cidades europeias concluiu que as árvores urbanas proporcionam, em média, uma redução de 0,8 graus Celsius na temperatura do ar, embora os resultados variem significativamente de local para local.

Outra investigação, publicada em 2024 na revista científica Nature Communications, identificou uma capacidade média de arrefecimento da superfície urbana próxima dos três graus Celsius associada à infraestrutura verde nas grandes cidades estudadas.

Estes resultados reforçam a importância de integrar a vegetação no planeamento urbano, não apenas através de grandes parques, mas também de árvores nas ruas, pequenos jardins de bairro, corredores ecológicos e recuperação de linhas de água.



Lisboa, Porto e Coimbra apresentam diferentes respostas

Em Portugal, várias capitais de distrito têm desenvolvido programas de arborização e expansão de espaços verdes, embora os indicadores disponíveis nem sempre permitam comparar diretamente os resultados.

Em Lisboa, o projeto LIFE LUNGS, desenvolvido entre 2019 e 2025, contabilizou a plantação de 116.551 árvores e arbustos numa área de 28,3 hectares. A iniciativa procurou reforçar a vegetação urbana, melhorar a adaptação às temperaturas elevadas e promover espécies adequadas às condições climáticas da cidade.

A capital dispõe também do Parque Florestal de Monsanto, com cerca de 1.049 hectares, uma das maiores áreas verdes urbanas do país. A existência de grandes parques, porém, não garante uma distribuição equilibrada da vegetação pelos diferentes bairros.

No Porto, o Relatório de Desenvolvimento Sustentável de 2024 apontava para uma disponibilidade de 22 metros quadrados de espaços verdes públicos por habitante. A estratégia municipal inclui a ligação entre parques através de corredores verdes, a criação de jardins de proximidade e a recuperação de espaços existentes.

Coimbra tem igualmente reforçado a arborização urbana. Em fevereiro de 2025, a autarquia anunciou que tinham sido plantadas 2.456 árvores no âmbito de várias intervenções municipais e de entidades ligadas ao Sistema de Mobilidade do Mondego. O plano municipal para 2024-2025 previa 2.540 árvores.

A cidade inaugurou ainda, em janeiro de 2025, uma floresta urbana no Vale das Flores, numa intervenção de quase dois hectares que incluiu mais de 400 árvores e 2.440 arbustos, a recuperação de uma linha de água e a remoção de espécies invasoras.



Mais árvores não significam necessariamente mais espaços verdes acessíveis

Apesar das iniciativas municipais, avaliar o progresso das cidades exige indicadores comparáveis e atualizados.

O número de árvores plantadas, por exemplo, não revela quantas sobreviveram nem qual a superfície de sombra que proporcionam. Da mesma forma, a existência de áreas florestais ou terrenos com vegetação não significa que a população disponha de jardins públicos próximos de casa.

Um estudo científico sobre Lisboa, publicado em 2022 na revista Sustainability, concluiu que a área de espaços verdes públicos analisada diminuiu cerca de 2% entre 2010 e 2020, embora outros indicadores de infraestrutura verde tenham registado aumentos. A diferença resulta dos critérios utilizados para classificar a vegetação urbana.

O desafio passa, por isso, não apenas por aumentar a superfície verde, mas por garantir a sua distribuição territorial, acessibilidade, manutenção e capacidade de produzir sombra.



O desafio de transformar o planeamento urbano

A experiência de Gondomar demonstra como a recuperação de um terreno central pode criar simultaneamente uma área verde, um espaço público de encontro e uma ligação entre equipamentos urbanos.

Contudo, intervenções desta natureza terão maior impacto climático se fizerem parte de redes contínuas de espaços verdes, articuladas com ruas arborizadas, percursos pedonais e sistemas naturais de drenagem.

A expansão urbana, a pressão imobiliária e a impermeabilização dos solos tornam esta transformação particularmente exigente nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, mas também nas cidades do interior, onde as temperaturas estivais podem atingir valores muito elevados.

Num contexto de aquecimento global, os espaços verdes deixam de representar apenas uma componente paisagística ou recreativa. Passam a integrar as infraestruturas essenciais de adaptação climática, com efeitos na saúde pública, no conforto urbano e na qualidade de vida.

O exemplo de Gondomar coloca uma questão central para o futuro das cidades portuguesas: não basta construir novos parques. É necessário assegurar que a vegetação e a sombra chegam, de forma continuada e equilibrada, aos locais onde as pessoas vivem, trabalham e circulam.



Parque Urbano de Gondomar. Foto CMG