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Açores perdem mais de 100 mil passageiros e 70 mil dormidas desde a saída da Ryanair

Foto Ryanair

Açores perdem mais de 100 mil passageiros e 70 mil dormidas desde a saída da Ryanair

28 de setembro de 2026

Seis meses depois de a Ryanair ter deixado de operar nos Açores, a região regista uma quebra de pelo menos 100 mil passageiros e 70 mil dormidas face ao mesmo período de 2025. A companhia, que voava para o arquipélago desde 2015, realizou o último voo a 28 de março, um dia antes da data anunciada para o fim da operação.

Os números

Segundo o Serviço Regional de Estatística dos Açores (SREA), entre abril e agosto desembarcaram nos aeroportos da região 1.206.055 passageiros, menos 103.766 (7,9%) do que no mesmo período de 2025.

Essa redução refletiu-se no alojamento turístico. Entre abril e julho, a hotelaria, o alojamento local e o turismo no espaço rural contabilizaram 1.967.881 dormidas, menos 71.627 (cerca de 3,5%) do que em igual período do ano anterior. Só as dormidas de turistas residentes em Portugal caíram 62 mil. Os dados de agosto ainda não foram divulgados. O turismo na região mostra sinais de abrandamento desde outubro de 2025.

Desde abril, as ligações entre os Açores e o continente são asseguradas apenas pela TAP e pela Azores Airlines, do grupo SATA. Apesar de 16 companhias aéreas terem operado na região neste verão, só duas voaram entre as ilhas e o resto do território nacional.

Porque saiu a Ryanair

A Ryanair anunciou a saída a 20 de novembro de 2025 e confirmou-a em janeiro de 2026. A companhia, que ligava São Miguel e a Terceira a Lisboa e ao Porto, apontou três razões principais:

Taxas aeroportuárias. A Ryanair acusou a ANA, concessionária dos aeroportos nacionais controlada pelo grupo francês Vinci, de aumentar as taxas de forma continuada, alegando subidas de até 35% desde a pandemia. O diretor comercial da companhia, Jason McGuinness, afirmou que estes custos crescentes não deixaram "alternativa" senão realocar a capacidade para aeroportos mais baratos na rede do grupo.



Aeroporto de Ponta Delgada - Imagem Vinci Airports



Tributação ambiental europeia. O CEO, Michael O'Leary, explicou em entrevista à Lusa que, desde 2026, os Açores e as Canárias foram integrados no regime europeu de comércio de licenças de emissão (ETS). Segundo o responsável, uma família de quatro pessoas que viaje de Lisboa para os Açores teria de pagar 96 euros em taxas ambientais. A companhia considera este regime anticoncorrencial, por isentar voos de longo curso para os EUA e o Médio Oriente.

Política do Governo. A Ryanair criticou a "inação" do Executivo, que teria aumentado em 120% as taxas de navegação aérea após a pandemia e introduzido uma taxa de viagem de 2 euros por passageiro.

O'Leary admitiu um eventual regresso, mas só se os impostos ambientais forem abolidos e as taxas aeroportuárias nos Açores forem "drasticamente reduzidas".

A versão da ANA

A ANA contestou os argumentos da Ryanair. A concessionária afirma que as taxas aeroportuárias nos Açores são as mais baixas da sua rede, que ficaram inalteradas em 2025 e que não propôs qualquer aumento para 2026. Em maio, reforçou o programa de incentivos para atrair companhias e novas rotas para a região e manteve as taxas inalteradas. A ANA acrescenta que o anúncio da Ryanair a apanhou de surpresa, já que as conversas recentes apontavam para um reforço da operação.

Impacto económico e resposta local

Um estudo da EY-Parthenon, encomendado pela Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada, estimou que a saída da Ryanair provoque uma perda anual de 339 mil a 391 mil dormidas, partindo de um cenário em que a companhia transportava entre 102.886 e 118.561 turistas por ano. Num setor que pesa cerca de 20% do PIB regional, o estudo calcula uma redução de 1,5% a 1,7% do PIB açoriano em 2026, o equivalente a uma perda entre 90,1 e 104,5 milhões de euros por ano.

Perante a saída, a Associação de Alojamento Local dos Açores, a Câmara de Comércio e Indústria, a Federação Agrícola e a Associação da Hotelaria de Portugal reivindicaram, num comunicado conjunto, um Fundo de Desenvolvimento de Rotas e o reforço do orçamento de promoção turística para 20 milhões de euros. O parlamento açoriano aprovou a criação do fundo em maio, mas o instrumento ainda não está em vigor. Em agosto, a secretária regional do Turismo, Berta Cabral, garantiu que o Governo Regional trabalha para o tornar "eficaz, juridicamente robusto e plenamente compatível com o enquadramento legal europeu". Cabral admitiu ainda que só a partir do verão de 2027 poderá existir uma nova companhia a voar entre a região e o continente.

DI com Lusa