
Andrés Segnini Capriles, Cofundador e CMO da Cimbrium
A inteligência artificial que aconselha, mas não decide, na obra
A inteligência artificial está a chegar à obra mais depressa do que se esperava. Já há ferramentas que leem fotografias, comparam o executado com o mapa de quantidades e indicam, com um grau de confiança, se uma fase parece concluída. É uma ajuda real. Mas levanta uma pergunta que o setor ainda não fez em voz alta: quando a máquina diz que está feito, quem responde se não estiver?
A resposta não deve mudar. Numa obra, quem assina é quem responde: o diretor de obra, a fiscalização, o técnico que mede e certifica. A IA pode analisar mais fotografias do que qualquer pessoa e não se cansa ao fim do dia, mas não visita a obra, não conhece o historial daquela laje nem responde perante o dono de obra. O seu papel certo é o de assessora: organizar a evidência e emitir um parecer, deixando a decisão a quem tem a responsabilidade técnica.
Na prática, grande parte das discussões sobre o avanço de uma obra não nasce de má-fé, mas de evidência desarrumada: fotografias sem data, medições feitas de memória, listas de verificação que ninguém preencheu. É aí que a IA rende mais. Pode exigir que cada fase chegue com fotografias datadas e georreferenciadas, confirmar que a lista de verificação está completa, comparar o que se vê com o que estava previsto e assinalar o que falta ou não bate certo. O técnico recebe um dossiê ordenado e um parecer, e decide em minutos o que antes lhe levava uma manhã.
Um exemplo simples: antes de betonar uma laje, a fiscalização quer confirmar armaduras, recobrimentos e cofragem. Se as fotografias chegam sem data, ou se falta a de um dos vãos, a IA deteta-o antes da visita e pede-a ao construtor. Quando o técnico chega, não perde tempo a reconstruir o que se fez: verifica o que importa e assina, ou não assina, com tudo à frente.
Para que isto funcione, bastam três regras:
1. O parecer nunca substitui a assinatura.A IA recomenda; a certificação é sempre de uma pessoa identificada.
2. O parecer tem de ser explicável. Um «aprovado» sem razões não serve: o técnico deve ver que fotografia, que medição e que ponto da lista sustentam cada conclusão.
3. A evidência fica guardada. Tudo o que serviu para certificar fica registado, com data, para que meses depois qualquer das partes perceba porque se decidiu assim.
Quando o pagamento depende do avanço verificado, estas regras deixam de ser teoria. O promotor sabe que só paga o que foi comprovado por quem tem competência para o fazer. O construtor sabe que, se a fase está feita e documentada, a certificação não fica parada à espera de uma segunda opinião. E, se surgir um conflito, há um registo objetivo em vez de duas memórias diferentes.
O risco não está em usar IA na obra; está em usá-la como atalho para que ninguém tenha de assinar. Uma ferramenta que aprova sozinha dilui a responsabilidade precisamente onde ela é mais necessária.
Na Cimbrium construímos o PactStream, a nossa plataforma de pagamentos por marcos, sobre este princípio: a IA organiza a evidência de cada fase e emite um parecer, e o pagamento só é libertado quando o técnico responsável certifica. Está desenvolvido e é ativado com os primeiros clientes. Mas a ideia vale com ou sem plataforma: a inteligência artificial deve tornar a decisão mais fácil e mais bem fundamentada, nunca torná-la desnecessária.
Andrés Segnini Capriles
Cofundador e CMO da Cimbrium















