
Rui Oliveira, Director da Saint-Gobain Solutions Portugal
Todos acreditam na construção sustentável. Porque continua a ser tão difícil colocá-la em prática?
Apesar de 73% dos profissionais do sector afirmarem compreender o conceito de construção sustentável, a sua implementação continua a avançar a um ritmo inferior ao esperado. Custos, dúvidas sobre o retorno do investimento e a necessidade de tornar as soluções mais competitivas continuam a ser alguns dos principais entraves identificados pelo mercado. Estas são algumas das conclusões do Barómetro da Construção Sustentável 2026, publicado pelo Observatório da Construção Sustentável da Saint-Gobain. Em entrevista ao Diário Imobiliário, Rui Oliveira, Director da Saint-Gobain Solutions Portugal, revela que Portugal apresenta níveis de consciencialização sobre a construção sustentável superiores à média europeia, mas a distância entre intenção e implementação continua a ser significativa.
O Barómetro revela que 73% dos stakeholders afirmam compreender o conceito de construção sustentável, mas a implementação continua aquém das expectativas. O que explica este desfasamento entre conhecimento e prática no mercado português?
O principal desafio não está já na compreensão do conceito, mas sim na sua concretização. O Barómetro mostra que a construção sustentável conquistou reconhecimento junto dos profissionais do sector, mas persistem obstáculos que dificultam a sua adopção em larga escala.
Cerca de 36% dos inquiridos identificam a necessidade de tornar os materiais, produtos e soluções sustentáveis mais competitivos como uma das principais prioridades para acelerar a transição. Apesar do maior conhecimento sobre o tema, continuam também a existir dúvidas relativamente ao retorno do investimento e à capacidade de algumas soluções entregarem, na prática, os benefícios prometidos ao longo do tempo.
Por outro lado, o estudo demonstra que a adopção da construção sustentável depende não apenas do conhecimento técnico, mas também da existência de um enquadramento favorável. A sensibilização do público em geral e o reforço de políticas que promovam a renovação energética surgem como factores importantes para criar confiança e impulsionar a implementação.
Apenas 41% dos stakeholders acreditam que a construção sustentável cria mais valor do que a construção tradicional. Porque continua a existir esta percepção de que a sustentabilidade pode não compensar economicamente?
Esta percepção está muito ligada à forma como o valor continua a ser medido em muitos processos de decisão. Frequentemente, o foco permanece no investimento inicial, enquanto benefícios como poupança energética, durabilidade, conforto, valorização do activo ou redução de custos operacionais são analisados numa perspectiva mais limitada.
Os dados do Barómetro mostram precisamente essa divisão. Embora 41% dos stakeholders considerem que a construção sustentável gera mais valor do que a construção convencional, ainda existe uma fatia significativa (26%) que entende o contrário. Isto demonstra que há ainda um caminho a percorrer na demonstração objectiva dos benefícios económicos associados a estas soluções.
Muitos dos ganhos proporcionados pela construção sustentável manifestam-se ao longo do ciclo de vida do edifício e não no momento da construção. Essa realidade torna mais difícil traduzir benefícios futuros em métricas financeiras imediatas, o que acaba por influenciar a percepção do mercado.
Quais são hoje os principais obstáculos que impedem uma adopção mais generalizada da construção sustentável em Portugal? São sobretudo financeiros, regulatórios, tecnológicos ou culturais?
O Barómetro sugere que os principais entraves são essencialmente económicos e de mercado, mais do que tecnológicos ou culturais. A competitividade das soluções sustentáveis surge como a principal preocupação. Paralelamente, continuam a existir dúvidas relacionadas com o retorno do investimento e com a previsibilidade dos resultados, factores que contribuem para uma maior percepção de risco na tomada de decisão.
Também existem desafios regulatórios: uma parte significativa dos inquiridos considera que políticas mais orientadas para a renovação energética poderiam acelerar a transformação do sector, já do ponto de vista dos cidadãos, observa-se uma realidade diferente, pois existe uma predisposição positiva em relação à sustentabilidade, mas ainda um conhecimento limitado sobre o tema.
Num contexto de pressão sobre os custos de construção e sobre a acessibilidade da habitação, como podem os promotores imobiliários conciliar sustentabilidade, rentabilidade e preços competitivos?
A sustentabilidade não deve ser encarada como um custo adicional, mas como uma ferramenta de eficiência. É precisamente essa mudança de perspectiva que permite conciliar desempenho ambiental, rentabilidade e acessibilidade. A industrialização dos processos construtivos, a optimização de recursos e a adopção de sistemas mais eficientes são exemplos de abordagens que podem reduzir desperdícios e melhorar a produtividade. Soluções construtivas mais leves e industrializadas permitem ganhos significativos em termos de rapidez de execução, controlo de qualidade e racionalização de custos.
Ao mesmo tempo, é importante considerar os benefícios operacionais dos edifícios, tais como soluções de isolamento térmico, fachadas eficientes ou vidros de elevado desempenho que contribuem para reduzir consumos energéticos e custos de utilização ao longo do tempo, gerando valor para proprietários e utilizadores.
Outro dado relevante do Barómetro é que 68% dos inquiridos associam a construção sustentável à renovação de edifícios existentes. A reabilitação representa frequentemente uma solução mais eficiente do ponto de vista económico e ambiental, desempenhando um papel fundamental na resposta aos desafios da habitação.
Os compradores estão efectivamente dispostos a pagar mais por edifícios sustentáveis? Existem já evidências claras de que a sustentabilidade se traduz numa valorização dos activos imobiliários?
O Barómetro não mede directamente a disposição dos consumidores para pagar um extra por edifícios sustentáveis nem quantifica a valorização dos activos. No entanto, os resultados permitem identificar uma tendência clara de valorização crescente da sustentabilidade. Entre os cidadãos, 60% consideram a construção sustentável uma prioridade e outros 37% classificam-na como importante, embora não prioritária. Estes números revelam uma predisposição favorável e demonstram que o tema já faz parte das preocupações da sociedade.
Ainda assim, os resultados mostram que o mercado continua a precisar de evidência mais robusta sobre o impacto económico da sustentabilidade. O facto de apenas 41% dos stakeholders associarem a construção sustentável a uma maior criação de valor indica que existe espaço para reforçar a demonstração dos benefícios concretos associados a edifícios mais eficientes, resilientes e confortáveis.
Que papel devem desempenhar o Estado e os municípios na aceleração da construção sustentável? As actuais políticas públicas e incentivos são suficientes ou Portugal precisa de medidas mais ambiciosas?
O sector reconhece que as políticas públicas têm um papel importante na aceleração da transformação. O Barómetro destaca a necessidade de reforçar o enquadramento regulatório favorável à renovação energética, mas também evidencia a importância da sensibilização e da capacitação dos cidadãos.
O Estado e os municípios podem atuar em várias frentes: simplificando processos, promovendo programas de renovação energética, incentivando a adopção de soluções mais eficientes e contribuindo para aumentar a literacia em torno da construção sustentável.
O estudo não permite afirmar de forma objetiva se as medidas atualmente existentes são suficientes ou insuficientes. O que demonstra claramente é que o mercado identifica áreas concretas onde políticas públicas, regulamentação e incentivos podem ajudar a acelerar a adopção das melhores práticas.
A construção sustentável vai muito além da eficiência energética. Que aspectos continuam a ser menos compreendidos pelo mercado, como a circularidade dos materiais, a redução da pegada carbónica ou a saúde dos ocupantes?
Os resultados sugerem que existe ainda uma diferença significativa entre o nível de conhecimento dos profissionais do sector e o do público em geral. Enquanto 73% dos stakeholders afirmam compreender claramente o conceito de construção sustentável, apenas 36% dos cidadãos dizem ter esse mesmo nível de entendimento. Esta diferença ajuda a explicar por que razão muitos aspectos mais avançados da sustentabilidade continuam menos presentes no debate público: temas como a circularidade dos materiais, a redução das emissões ao longo do ciclo de vida dos edifícios, a adaptação às alterações climáticas ou a qualidade ambiental interior são frequentemente menos visíveis do que a eficiência energética. Além disso, muitos destes benefícios produzem resultados a médio e longo prazo, o que dificulta a sua percepção imediata e a sua integração nos processos de decisão económica.
Se o próximo Barómetro fosse realizado daqui a cinco anos, que mudanças gostaria de ver nos resultados? O que terá necessariamente de acontecer para que a construção sustentável deixe de ser uma intenção e passe a ser a norma no sector?
O principal objectivo seria observar uma redução significativa da distância entre aquilo que o sector reconhece como importante e aquilo que efectivamente implementa. Gostaríamos de ver uma maior percentagem de stakeholders a reconhecer que a construção sustentável cria valor económico, uma maior confiança no desempenho das soluções disponíveis e uma adopção mais transversal em diferentes segmentos do mercado, incluindo a habitação acessível.
Para que isso aconteça, será fundamental continuar a demonstrar resultados concretos, garantir desempenho real e aumentar a competitividade das soluções sustentáveis. A inovação, a industrialização e a reabilitação terão igualmente um papel determinante na transformação do sector.
Num momento em que os critérios ESG ganham peso nas decisões de investimento, Portugal corre o risco de perder competitividade se não acelerar a adoção da construção sustentável? Como estamos posicionados face a outros mercados europeus?
Os resultados do Barómetro mostram que Portugal se encontra numa posição bastante positiva em termos de consciência e prioridade atribuída ao tema. Cerca de 73% dos stakeholders portugueses consideram a construção sustentável uma prioridade, um valor superior à média europeia, que se situa nos 59%.
O desafio está agora na capacidade de transformar essa ambição em implementação efetiva. À medida que investidores, instituições financeiras e seguradoras integram cada vez mais critérios ESG nas suas decisões, a capacidade de demonstrar desempenho, resiliência e eficiência torna-se um fator competitivo relevante.
Portugal parte de uma base favorável em termos de sensibilização e compromisso, mas a verdadeira diferenciação dependerá da rapidez com que conseguir converter essa prioridade em projetos concretos, resultados mensuráveis e valor demonstrado para o mercado.

















