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quinta-feira, 15 de abril de 2021
Entrevistas
Actuais políticas de habitação não são adequadas às gerações mais novas

Actuais políticas de habitação não são adequadas às gerações mais novas

8 de março de 2021

O desejo de comprar casa faz parte dos planos dos millennials nacionais mas Nuno Garcia, director geral da GesConsult  garante que as actuais políticas de habitação não são adequadas para eles.

Na sua opinião, o caso do programa da renda acessível: apesar de bem intencionado, é um flop. Não se trata do desconhecimento das pessoas em relação aos programas de incentivo, mas sim da desconfiança dos proprietários para uma “parceria” com o Estado. O director geral da GesConsult adianta ainda que os millennials com capacidade de investimento procuram, maioritariamente, opções fora dos grandes centros urbanos, em locais onde podem tirar partido da proximidade com uma praia ou uma serra, espaços que primem pela presença de tecnologia de ponta e pela sustentabilidade. Localizações como Tróia, Comporta ou Sintra são cada vez mais procurados por esta geração.

Que tipo de imobiliário interessa aos millennials?

Ao contrário do que se verificou em gerações anteriores, que viu num apartamento de luxo numa zona nobre de cidade algo de muito apetecível, os millennials com capacidade de investimento procuram, maioritariamente, opções fora dos grandes centros urbanos, em locais onde podem tirar partido da proximidade com uma praia ou uma serra, espaços que primem pela presença de tecnologia de ponta e pela sustentabilidade.

Trata-se de uma geração de pessoas que, por via do tipo de oportunidades profissionais a que tem tido acesso, tem ascendido a níveis financeiros bastante confortáveis numa idade mais precoce e isso permite que sejam bastante específicos no tipo de imóveis em que procuram investir – sabem o que querem e onde querem. Nas cidades, quando procuram ficar no centro, preferem os bairros históricos às avenidas novas, valorizam a envolvência e sítios com mais autenticidade. 

Os jovens que estão hoje em condições de adquirir imobiliário de luxo são declaradamente conscientes e decididos em relação à vista que desejam, à vontade de terem um estilo de vida mais próximo da natureza e a uma utilização ambientalmente responsável.

Geralmente diz-se que esta geração prefere o arrendamento à comprade casa mas, na sua opinião, a aquisição ainda é o desejo da maioria?

O arrendamento continua a ser o formato que mais flexibilidade permite em termos de permanência num imóvel, algo que faz bastante sentido para quem desempenha funções que envolvem movimentações frequentes no país e, até, entre países.

Ainda assim, a ideia da compra de casa própria continua a ser algo muito presente na mentalidade portuguesa e os millennials nacionais não são alheios a isso. São, aliás, proprietários atentos às vantagens de rentabilização do seu património, pelo que não são raros os casos de compra de uma habitação de classe premium para arrendamento a outras pessoas com capacidade de investimento forte, mesmo que por períodos reduzidos.   

Que tipo de casas procuram e em que regiões?

Acima de tudo, casas espaçosas e em zonas descentralizadas. Se até recentemente o mais comum era trocar uma primeira habitação quando a família crescesse, hoje valorizam-se mais cedo os espaços amplos, com vistas desafogadas e em locais ligados a condições de conforto, bem-estar e saúde.

Localizações como Tróia e Comporta tornaram-se bastante apetecíveis para clientes da geração millennial. Sintra, que fica próxima do mar e da serra, também constitui um mercado interessante para quem procura estar próximo dos centros de decisão, mas rodeado de condições que a cidade não tem. Cascais e Tomar também mostram essas mesmas características, bem como outras zonas num raio de 100kms de um grande centro urbano. 

 Mesmo uma geração que nasceu na era digital e tecnológica asdificuldades do mercado de trabalho mantêm-se e nem todos os millenialsvão ter sucesso profissional e irão alcançar cargos de topo. Tal como emtodas as gerações, será um nicho a ter sucesso e os problemas dehabitação irão manter-se. Acredita que a nova geração de políticas dehabitação irá de facto ajudar a solucionar os problemas de habitaçãopara as gerações mais novas?

Não, não acredito que as políticas em curso sejam a solução de que as gerações mais jovens precisam. Veja-se o caso do programa da renda acessível: apesar de bem intencionado, é um flop. Não se trata do desconhecimento das pessoas em relação aos programas de incentivo, mas sim da desconfiança dos proprietários para uma “parceria” com o Estado, porque existe o receio de que, se houver uma alteração no Governo, as medidas se alterem, como se tem visto acontecer nos últimos anos. Mesmo a franja que pode candidatar-se a uma renda acessível é residual; do lado dos proprietários, quem no seu perfeito juízo admite um arrendamento abaixo do preço de mercado quando corre o risco de passados quatro anos a estratégia mudar?

Existem promotores privados que querem construir para a classe média. Não deveria o Estado apoiar esse tipo de iniciativa e investimento, com processos de licenciamento mais céleres, com incentivos fiscais ou cedência de terrenos? O que se verifica é que o Estado não só não está a conseguir criar habitação em quantidade suficiente, como dificulta que os projetos novos “saiam do papel”. E atenção: não é à conta de licenciamentos condicionados à criação de casas para renda acessível que se vai atrair investimento.

Outro aspecto que me parece relevante para o problema é a quantidade de imóveis no mercado paralelo de arrendamento que não reconhece nos programas de incentivo qualquer ganho financeiro.

Infelizmente não me parece existir grande abertura do Estado para perceber que outro tipo de sinergias pode criar com os privados ou que condições de apoio deve fornecer aos promotores para impulsionar mais construção para a classe média.

 Como vê o futuro do mercado imobiliário nos próximos anos?

 Antecipo uma continuação do panorama verificado nos últimos anos: um mercado residencial de luxo com uma procura consolidada, cada vez mais dispersa em termos geográficos, graças à procura de opções fora dos grandes centros de decisão; um segmento residencial de classe média com preços desajustados face à evolução dos rendimentos das famílias, que não vai oferecer soluções no curto-prazo porque as políticas que estão a ser lançadas hoje vão demorar anos a produzir efeitos, muito devido aos prazos administrativos vigentes; e um parque habitacional público com resposta deficitária, mais ainda no rescaldo da crise social e económica trazida pela pandemia.  

 Acredita que esta pandemia vai modificar as tendências habitacionaisdos portugueses?

A pandemia produziu efeitos quase imediatos no imobiliário nacional, facilmente percetíveis pela mudança das prioridades dos portugueses quanto às melhorias e adaptações a fazer em casa, algo que acredito que venha a manter-se durante algum tempo, mesmo depois do Covid-19 deixar de ser uma ameaça.

Questões como o isolamento acústico, a eficiência térmica, a reorganização de áreas para trabalho remoto, tudo isso se tornou prioritário a partir do momento em que se percebeu que o isolamento domiciliário se iria manter não durante semanas, mas meses.

Estamos a cumprir um ano sobre o início da emergência pandémica em Portugal e hoje as pessoas mostram-se bastante mais críticas sobre o que valorizam e o que procuram: zonas sociais desafogadas, espaços de trabalho separados e áreas exteriores (como varandas, pátios e jardins) são exemplos de requisitos que acredito que venham a sobreviver à pandemia.

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