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Opinião
Entre aeroportos e escolas degradadas: As prioridades trocadas do Estado português

Fernanda Pedro, directora do Diário Imobiliário

Entre aeroportos e escolas degradadas: As prioridades trocadas do Estado português

20 de maio de 2026

Portugal prepara-se para investir dezenas de milhares de milhões de euros em grandes infraestruturas como o novo aeroporto de Lisboa ou a rede de alta velocidade ferroviária (TGV). São projectos ambiciosos, mediáticos e politicamente apelativos. Representam modernidade, competitividade e visão estratégica. Mas há uma pergunta inevitável que o país continua a evitar: Como pode um Estado que ambiciona estar na linha da frente europeia continuar a falhar em funções tão básicas como garantir escolas dignas e hospitais funcionais?

A resposta talvez esteja nas prioridades.

Enquanto se discutem traçados ferroviários, localizações aeroportuárias e calendários políticos, milhares de alunos continuam a estudar em escolas envelhecidas, muitas delas sem condições adequadas. Segundo dados do Tribunal de Contas, a empresa pública Parque Escolar gastou cerca de 2,3 mil milhões de euros para reabilitar pouco mais de 150 escolas secundárias. O valor impressiona. Mas o resultado, quando comparado com a dimensão do parque escolar nacional, revela a dimensão do problema.

Portugal tem cerca de 4.000 escolas básicas, mais de 220 escolas básicas e secundárias, aproximadamente 300 escolas secundárias e nove escolas artísticas. Ou seja, a reabilitação feita até agora abrange apenas uma pequena parte da rede escolar existente. E muitas das escolas intervencionadas continuam hoje a necessitar de manutenção e modernização.

A estimativa de investimento necessário para requalificar verdadeiramente o parque escolar ronda os 69 mil milhões de euros. Um valor gigantesco, sem dúvida, mas que deveria ser encarado como investimento estrutural e não como despesa secundária. Afinal, há algo mais estratégico para o futuro do país do que a educação?

O mesmo cenário repete-se na saúde.

Portugal acumula hospitais prometidos há décadas, muitos deles transformados em símbolos do eterno adiamento político. O Hospital Central do Algarve é prometido há cerca de 40 anos. O Hospital Lisboa Oriental arrasta-se há 16 anos entre anúncios e estudos, com um custo estimado de 432 milhões de euros. O hospital do Seixal espera há mais de duas décadas, apesar de já existir terreno disponível. Barcelos aguarda há anos por uma unidade prometida e orçada em 80 milhões de euros. Vila do Conde, Lagos ou o Hospital do Oeste, no Bombarral, continuam presos entre intenções políticas e lentidão administrativa.

Entretanto, os hospitais existentes enfrentam problemas crónicos: urgências sobrelotadas, falta de profissionais, equipamentos desactualizados e edifícios envelhecidos.

É verdade que existem obras em curso, como os hospitais de Évora ou da Madeira. Mas também é verdade que muitas destas intervenções demoraram décadas a arrancar e continuam longe de responder à dimensão das necessidades nacionais.

O problema não está em construir um novo aeroporto ou desenvolver uma rede ferroviária moderna. O país precisa dessas infraestruturas. O problema surge quando essas obras parecem avançar com maior rapidez, prioridade política e capacidade de mobilização financeira do que setores absolutamente essenciais como a educação e a saúde.

Há uma diferença entre projectos de projecção política e investimentos estruturais de impacto social. O aeroporto gera manchetes. O TGV simboliza progresso. Mas uma escola renovada melhora directamente a aprendizagem de milhares de crianças. Um hospital moderno salva vidas, reduz desigualdades e reforça a coesão social.

O Estado português parece muitas vezes seduzido pela lógica da obra visível, do grande projecto que marca governos e legislaturas. Contudo, o verdadeiro desenvolvimento mede-se menos pelo betão mediático e mais pela qualidade dos serviços públicos que sustentam o quotidiano das pessoas.

Um país moderno não é apenas aquele que tem comboios rápidos ou aeroportos gigantescos. É aquele que garante escolas seguras, hospitais eficientes e serviços públicos dignos.

E talvez Portugal precise urgentemente de redefinir aquilo que considera verdadeiramente estratégico.

Fernanda Pedro

Directora do Diário Imobiliário