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Crescimento da economia mundial entre 2,4–2,5% e de 1% na Europa em 2026
Insolvências empresariais devem crescer entre 3% e 4%, abaixo do aumento previsto entre 6% e 7% para o final de 2025, com a construção, hotelaria e restauração como os sectores mais afectados, refere relatório de perspectivas 2026 da Coface.
Os especialistas da Coface - empresa internacional que actua na gestão do risco de crédito comercial -, o ano de 2025 ficará marcado como um momento decisivo para a economia mundial. Após a vitória de Donald Trump no final de 2024, o protecionismo comercial entrou numa nova fase, marcada pelo “Dia da Libertação” (abril de 2025) e pela rápida implementação de tarifas generalizadas. Esta aceleração súbita elevou a incerteza económica a níveis inéditos desde a pandemia de COVID-19 e, além do impacto tarifário, abalou toda a arquitectura geopolítica global, introduzindo novos desafios que moldarão a economia e o comércio mundial ao longo deste ano. Entre eles, destacam-se a fratura dentro do próprio bloco atlântico, um crescimento económico global moderado, o aumento das insolvências empresariais e a competitividade europeia como tarefa pendente.
Perspetivas para 2026: crescimento moderado e insolvências persistentes
Para este ano, a Coface antecipa um cenário marcado por duas tendências principais. A primeira é um crescimento global moderado e desigual entre regiões. Prevê-se que a recuperação económica mundial se situe entre 2,4–2,5%, representando uma nova desaceleração face aos 2,6–2,7% estimados para 2025. Este ritmo, inferior ao potencial pré-pandemia, tornou-se o novo normal no atual contexto económico.
Por regiões, nos Estados Unidos o crescimento estabilizará ligeiramente abaixo dos 2%, impulsionado sobretudo por investimentos em inteligência artificial (IA) e tecnologia — centros de dados, redes, produção elétrica, entre outros. Só o setor da IA representa cerca de 20% do crescimento norte-americano em 2025, e quase a totalidade se forem considerados os efeitos sobre o consumo decorrentes da valorização bolsista das grandes tecnológicas. Na Europa o crescimento previsto mantém-se próximo de 1%, semelhante a 2025. A Alemanha poderá
atingir 1% graças ao plano Merz, enquanto a previsão para França é de 0,6%, ainda condicionada por incertezas fiscais e políticas. Por seu lado a Chinacontinuará a sua desaceleração orgânica, apesar do objetivo oficial de 5%. A Índiamantém um dinamismo robusto, apoiado nos seus motores internos e na baixa exposição ao mercado norte-americano.
A segunda variável determinante em 2026 será o aumento das insolvências. Prevê-se que as falências empresariais continuem a crescer, embora a um ritmo mais lento. Para 2026, a Coface antecipa um aumento global entre 3% e 4%, abaixo dos 6% a 7% estimados para o final de 2025. Os setores mais afetados continuam a ser a construção e a hotelaria e restauração, mas observa-se também um forte aumento entre empresas de média dimensão com elevado peso social. “As empresas historicamente frágeis viram a sua queda acelerar devido ao contexto geral”, afirma Frédéric Wissocq, diretor de subscrição para a Europa Ocidental e África na Coface.
As chamadas empresas “zombie”, que sobreviveram graças aos apoios da pandemia e às taxas de juro reduzidas, estão a desaparecer gradualmente. Contudo, poderá surgir uma nova vaga de insolvências com a adoção progressiva de tecnologias — especialmente IA — no tecido produtivo, fenómeno que Jean-Christophe Caffet, Economista-chefe do Grupo Coface, descreve como “criação destrutiva”, mais do que “destruição criativa”, pelo menos numa fase inicial de transição.
Foco Europa: competitividade entre as ambições do relatório Draghi e a realidade da sua implementação
O ano de 2025 confirmou que a economia é hoje utilizada como instrumento geoestratégico. As relações internacionais organizam-se em torno de dinâmicas de poder, onde tarifas, restrições à exportação e sanções económicas transformam-se em verdadeiras armas de coerção. Neste contexto, a fragmentação global intensifica-se em 2026 com um fenómeno novo: a fratura dentro do próprio bloco atlântico, com impacto directo na Europa.
“A fragmentação acelera e a economia torna-se uma ferramenta de coerção. Antes falava-se da heterogeneidade do Sul Global, mas hoje é a relação transatlântica que suscita maior preocupação”, afirma Frédéric Wissocq. “Esta revisão da aliança histórica obriga a Europa a repensar urgentemente a sua postura estratégica, especialmente em matéria de defesa, num contexto de fortes restrições orçamentais em vários países.”
A Europa identificou claramente as suas fragilidades. O relatório Draghi sobre competitividade e o relatório Letta sobre o mercado único destacam problemas estruturais: atraso face aos EUA e China em inovação, fragmentação do mercado único, custos energéticos elevados e dependências estratégicas excessivas.
A resposta europeia articula-se em torno do “Compasso de Competitividade”, que define um rumo estratégico até 2029 baseado em redução da distância tecnológica; articulação entre descarbonização e competitividade; reforço da segurança e redução de dependências e aceleração da integração política.
Contudo, “uma das maiores preocupações é o atraso na implementação prática das recomendações dos relatórios Draghi e Letta”, sublinha Jean-Christophe Caffet. Apesar de alguns avanços — gigafábricas, simplificação administrativa para PME, aceleração de licenças mineiras — o ritmo está muito aquém do necessário.
O plano Draghi previa investimentos anuais entre 750 e 800 mil milhões de euros, mas a mobilização destes recursos está a ser travada por restrições orçamentais e pela relutância de alguns Estados em emitir dívida conjunta.
O caso alemão ilustra esta tensão: a chegada de Friedrich Merz ao poder em 2025 marcou uma mudança na política económica alemã, tradicionalmente assente na disciplina fiscal. A Alemanha anunciou um plano de estímulo de 850 mil milhões de euros em dez anos, destinado a infraestruturas, defesa e transição ecológica. Embora este movimento possa gerar efeitos positivos na Europa, persistem dúvidas sobre a execução e o calendário, dada a habitual prudência fiscal alemã
Quanto às perspectivas futuras das empresas europeias, os especialistas da Coface identificam vários desafios para este exercício: o proteccionismo dos Estados Unidos, a concorrência chinesa e a instabilidade política regional.
Apesar dos receios iniciais, as tarifas dos EUA não provocaram grandes distorções para os exportadores europeus. As taxas efetivas situam-se atualmente em torno de 16–17 % a nível global, afetando a Europa de forma semelhante aos seus concorrentes.
“Europa não está mais penalizada do que o resto do mundo e, em alguns produtos, até menos”, afirma Jean-Christophe Caffet. A análise sugere que cerca de 80 % do custo tarifário é suportado por entidades norte‑americanas — empresas ou consumidores — e não pelos exportadores estrangeiros.
O verdadeiro risco para a indústria europeia encontra-se noutro ponto: o “segundo choque chinês”, caracterizado por um dumping massivo da sobreprodução chinesa no mercado europeu. Este fenómeno resulta da combinação entre sobrecapacidade industrial na China e tarifas dos EUA, que dificultam o acesso ao mercado norte-americano. A China tem redirecionado exportações para a Europa (+6 % em termos homólogos) e, sobretudo, para países “conectores”, como o Vietname (+20 %).
Esta ofensiva exerce forte pressão deflacionista: a diferença de preços entre produtos chineses e europeus aumentou 30 pontos desde a reabertura pós‑COVID, ultrapassando 40 pontos quando se consideram variações cambiais.
“Esta sobrecapacidade chinesa comprime os preços de produção, estrangulando o volume de negócios e, consequentemente, as margens dos fabricantes europeus. Não é um fenómeno temporário, mas uma tendência significativa e provavelmente duradoura”, afirma Caffet
Os setores mais afetados incluem veículos elétricos, onde a China deu um salto para a gama alta; bens de equipamento, especialmente ligados à produção de energia livre de carbono; metais, cujos principais mercados — construção e automóvel — estão em desaceleração.
Neste contexto, a incerteza pesa sobre a confiança dos agentes económicos, travando o consumo e gerando prudência nas decisões de investimento.













