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Opinião
Bruno de Carvalho Matos, Engenheiro Civil

Bruno de Carvalho Matos, Engenheiro Civil

A importância da Engenharia Civil na prevenção e gestão de Cheias

23 de fevereiro de 2026

O inverno de 2026 ficará na memória de Portugal como uma das épocas meteorológicas mais extremas dos últimos anos, marcado por uma sucessão de tempestades que colocaram à prova a resiliência do território e da sociedade. Sistemas depressivos como a Kristin, a Leonardo e a Marta trouxeram chuva intensa e prolongada, levando a situações críticas em várias regiões do país. Estes fenómenos provocaram transbordos de cursos de água, inundações em zonas urbanas e rural, assim como vítimas mortais e prejuízos generalizados em infraestruturas essenciais. Um dos casos mais dramáticos foi a rotura de um dique na bacia do rio Mondego, que causou o colapso parcial de um troço da auto-estrada A1 e obrigou à evacuação de cerca de 3000 pessoas perante o risco de agravamento das cheias.

O que se passou em 2026 não é, porém, um fenómeno sem precedentes na história portuguesa. Episódios de cheias severas já marcaram o território em diferentes décadas, com impacto social e material profundo. As inundações que atingiram Lisboa em novembro de 1967, por exemplo, foram um dos desastres naturais mais trágicos do século XX no país, com centenas de vítimas e destruição generalizada que expuseram falhas no planeamento urbano e na capacidade de resposta dos sistemas de drenagem.

Estes acontecimentos recentes e o registo histórico mostram que Portugal enfrenta desafios climáticos e hídricos que remontam há décadas, mas que hoje se expressam com intensidade agravada pelas alterações no clima e pela rápida expansão urbana. A conjugação de fatores como a saturação dos solos, o aumento das superfícies impermeáveis e a insuficiente capacidade de escoamento dos cursos de água contribui para elevar o risco de cheias quando há chuva extrema.

A Engenharia Civil tem um papel decisivo neste contexto, pois permite compreender e mitigar os riscos hídricos através de soluções técnicas e de planeamento. O desenvolvimento de mapas de risco, com base em dados hidrológicos, topográficos e climáticos, é fundamental para orientar o uso do solo e reduzir a exposição de pessoas e bens em zonas vulneráveis. Do mesmo modo, sistemas de drenagem urbana adequadamente dimensionados e infraestruturas hidráulicas robustas - que integrem galerias de grande capacidade, estações de bombagem, diques reforçados e barragens com monitorização em tempo real - são essenciais para responder a eventos extremos, assegurando que as cidades e redes viárias resistem aos impactos das cheias.

Em particular, projetos de grande envergadura, como o plano de drenagem da cidade de Lisboa, que inclui túneis subterrâneos e estruturas de armazenamento temporário para captar e redirecionar águas pluviais, exemplificam abordagens integradas para aumentar a resiliência urbana. Além disso, a avaliação contínua e manutenção de infraestruturas críticas, reforçada após os eventos recentes, constitui um passo importante para identificar pontos frágeis e planear intervenções prioritárias.

Contudo, para além da resposta técnica, é indispensável uma estratégia integrada que combine políticas públicas orientadas para a resiliência climática, a revisão de normas de construção e de ordenamento do território, e incentivos à inovação e formação técnica em gestão de risco hidrológico e hidráulica urbana. Só assim se pode construir um quadro de prevenção eficaz que contemple soluções de engenharia, gestão territorial e participação comunitária.

Por fim, os eventos de 2026 ilustram que Portugal se encontra perante um novo patamar de desafios climáticos. A Engenharia Civil, mais do que uma disciplina de construção, é uma ciência de análise, planeamento e inovação que pode transformar profundamente a forma como o país gere as suas águas, o seu território e as suas cidades. Com infraestruturas resilientes, sistemas de monitorização avançados e um quadro político e técnico articulado, Portugal estará melhor preparado para enfrentar os desafios hídricos e climáticos do século XXI.

Bruno de Carvalho Matos

Engenheiro Civil

*Texto escrito com novo Acordo Ortográfico