
Obras - Construção
Construção mantém oportunidades, mas financiamento e margens continuam sob pressão
O setor da construção mantém uma trajetória de resiliência em 2026, impulsionado sobretudo pelo investimento em infraestruturas, pela transição energética e pela forte procura associada aos data centers. Apesar das oportunidades, as empresas continuam a enfrentar dificuldades ao nível do financiamento, execução dos projetos e preservação das margens, levando a Allianz Trade a classificar o setor como de “risco sensível” no seu Sector Atlas 2026.
O estudo, que avalia o risco empresarial em 17 setores, considera fatores como procura, rentabilidade, liquidez e ambiente de negócio. Na construção, a evolução permanece desigual, com os segmentos mais ligados ao investimento público e à infraestrutura a apresentarem melhores perspetivas do que as áreas residencial e comercial.
Infraestruturas e energia sustentam atividade
Os projetos públicos de infraestrutura estão entre os principais suportes da atividade, a par dos investimentos em energia, redes elétricas, renováveis e defesa.
A engenharia civil deverá continuar a ser o segmento mais forte, beneficiando da procura em áreas como transportes, água, energia e redes elétricas. Este cenário cria oportunidades sobretudo para empresas com capacidade técnica e financeira para assumir projetos de maior dimensão e complexidade.
Já a construção residencial deverá recuperar de forma mais gradual, acompanhando uma eventual melhoria das condições de financiamento. No segmento comercial, a perspetiva permanece mais condicionada pela cautela do investimento privado.
Data centers aceleram procura por construção especializada
Um dos fenómenos mais relevantes identificados pela Allianz Trade é a expansão dos data centers, impulsionada pelo crescimento da inteligência artificial e da computação em cloud.
O aumento do investimento está a beneficiar empresas de engenharia, construção especializada e infraestrutura energética, criando um dos mercados mais dinâmicos para o setor.
As oportunidades, contudo, não eliminam os riscos de execução. A capacidade das empresas para transformar o crescimento da procura em resultados dependerá do controlo dos custos, cumprimento dos prazos, disponibilidade de mão de obra e gestão do risco contratual.
A dimensão deste ciclo de investimento é particularmente evidente nos hyperscalers, cujo investimento em infraestrutura deverá atingir 725 mil milhões de dólares em 2026 e ultrapassar um bilião de dólares em 2027.
Custos e falta de profissionais continuam a pressionar margens
Apesar da estabilização dos custos dos materiais, permanecem vários fatores de pressão sobre a rentabilidade das empresas de construção.
A escassez de mão de obra qualificada, os atrasos nos processos de licenciamento, a complexidade regulatória e a exposição a contratos de preço fixo continuam a representar riscos para as margens.
Num setor caracterizado por níveis de rentabilidade tradicionalmente reduzidos e elevadas necessidades de fundo de maneio, a seleção dos projetos e o controlo rigoroso dos custos assumem, por isso, uma importância crescente.
A Allianz Trade considera que a capacidade de execução será determinante para distinguir as empresas que conseguem beneficiar do atual ciclo de investimento daquelas que poderão ficar expostas a maiores dificuldades financeiras.
Economia global deverá abrandar em 2026
As perspetivas para a construção inserem-se num cenário económico global de crescimento mais moderado. A Allianz Trade prevê uma expansão mundial de 2,5% em 2026, antes de uma recuperação para 2,9% em 2027.
O estudo identifica ainda uma economia a “três velocidades”, com diferenças significativas na evolução do risco entre setores e cadeias de valor.
A inteligência artificial assume um papel central nesta dinâmica. Nos Estados Unidos, deverá representar cerca de um terço do crescimento, enquanto os semicondutores surgem como um dos principais beneficiários do ciclo de investimento associado à IA.
Europa com desempenho desigual entre setores
Na Europa, a evolução empresarial continua concentrada em setores como energia, defesa e semicondutores. Em sentido contrário, os setores automóvel, transportes, retalho discricionário e metais permanecem sujeitos a maior pressão.
A construção acompanha esta diferenciação. Enquanto as infraestruturas, energia e data centers beneficiam de tendências estruturais de investimento, o imobiliário residencial e comercial continua condicionado pelo custo do financiamento e por uma maior prudência dos investidores privados.
Para as empresas de construção, o contexto traduz-se numa combinação de oportunidades e riscos: existe procura para novos projetos, mas a capacidade de executar dentro do orçamento e dos prazos previstos será decisiva para garantir que o aumento da atividade se transforma efetivamente em rentabilidade.
A classificação de “risco sensível” atribuída pela Allianz Trade reflete precisamente este equilíbrio entre um setor com importantes motores de crescimento e a persistência de fragilidades estruturais que continuam a condicionar a sua performance.
















