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Colecção de Arte Contemporânea do Estado ganha casa própria ao fim de 50 anos
A Colecção de Arte Contemporânea do Estado (CACE) vai inaugurar, no próximo dia 1 de Julho, o seu primeiro espaço permanente de reservas visitáveis, um projecto que marca uma nova etapa na história da colecção pública criada em 1976. Instalado em Alcabideche, no concelho de Cascais, o novo CACE Centro permitirá reunir, pela primeira vez, uma parte substancial do acervo estatal de arte contemporânea num único edifício aberto ao público.
A abertura do equipamento concretiza uma decisão aprovada pelo Conselho de Ministros em Dezembro de 2025 e responde a uma reivindicação antiga de artistas, curadores e profissionais do sector, que há décadas apontavam a necessidade de dotar a colecção de uma estrutura própria para conservação, estudo e divulgação.
Segundo a directora e curadora da colecção, Sandra Vieira Jürgens, trata-se de um "marco histórico" para um acervo que, apesar da sua importância para a arte contemporânea portuguesa, passou grande parte da sua existência disperso por vários espaços e com reduzida visibilidade institucional.
O novo centro está instalado num edifício anteriormente pertencente à Fundação Ellipse, ligada ao extinto Banco Privado Português (BPP), adquirido pelo Estado no âmbito do processo de insolvência da instituição. O imóvel foi alvo de obras de adaptação avaliadas em cerca de um milhão de euros.
Actualmente, a Colecção de Arte Contemporânea do Estado integra mais de 3.200 obras, das quais cerca de 1.300 ficarão concentradas no novo centro. As restantes permanecem distribuídas por depósitos e instituições parceiras, entre as quais a Fundação de Serralves, autarquias, organismos públicos, embaixadas e entidades culturais.
Reservas visitáveis e bastidores da gestão museológica
Ao contrário de um museu tradicional, o CACE Centro foi concebido para dar a conhecer ao público o trabalho desenvolvido nos bastidores da gestão de uma colecção de arte.
O espaço inclui reservas visitáveis, áreas de conservação, inventariação e catalogação, permitindo aos visitantes acompanhar processos normalmente inacessíveis ao público, como o embalamento, transporte, preparação de exposições e gestão de empréstimos de obras.
"Queremos que as pessoas compreendam que uma colecção não é apenas aquilo que se vê numa exposição. Há todo um trabalho diário de conservação, estudo, investigação e circulação das obras que agora poderá ser conhecido de perto", sublinha Sandra Vieira Jürgens.
O equipamento dispõe ainda de uma sala central multifuncional destinada a actividades educativas, conferências e programação cultural, duas galerias para exposições temporárias e uma "black box" dedicada à apresentação de obras multimédia.
As visitas serão realizadas mediante marcação prévia e destinam-se tanto ao público em geral como a estudantes, investigadores e profissionais do sector cultural.
Poupança de 660 mil euros por ano
Quando anunciou a criação do CACE Centro, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, destacou que a concentração das obras num único espaço permitirá reduzir significativamente os custos associados ao armazenamento da colecção.
Segundo o Governo, a medida representará uma poupança anual estimada em cerca de 660 mil euros, verba que será reinvestida na área da Cultura.
Além da racionalização de recursos, o novo centro foi concebido de acordo com padrões museológicos internacionais, reforçando as condições de segurança, conservação e controlo ambiental exigidas para a preservação do património artístico.
Exposição inaugural mostra aquisições dos últimos anos
A inauguração do CACE Centro será assinalada com a abertura da exposição "Dual Sim", dedicada às obras adquiridas para a colecção entre 2019 e 2025.
Com curadoria de Filipa Rocha Nunes e Sofia Montanha, a mostra reúne 23 obras de artistas contemporâneos portugueses e internacionais representados na colecção, abrangendo áreas como pintura, escultura, instalação e vídeo.
Entre os artistas presentes encontram-se Gabriel Abrantes, Leonor Antunes, Joana Escoval, Susanne S. D. Themlitz, Paulo Mendes, Sara Graça, Eugénia Mussa, Ana Cardoso, Belén Uriel e Von Calhau.
O programa inaugural inclui ainda uma parceria com a Companhia Nacional de Bailado e a apresentação de várias obras do acervo nas áreas centrais do edifício.
Colecção continuará a circular pelo país e pelo estrangeiro
Apesar da criação de uma sede permanente, a direção da CACE garante que a missão da colecção continuará a passar pela circulação das obras em Portugal e no estrangeiro.
Desde 2023, o acervo esteve presente em 16 exposições, das quais 11 realizadas em território nacional e cinco em cidades internacionais como Madrid, Berlim, Roma e Xangai.
O calendário até 2028 prevê novas exposições em Sines, Açores, Viseu, Évora, Funchal, Beja, Caldas da Rainha e Paris, reforçando a estratégia de descentralização e internacionalização da colecção.
Criada em 1976 para representar e preservar a produção artística contemporânea portuguesa, a Colecção de Arte Contemporânea do Estado entrou numa nova fase a partir de 2017, com a definição de uma estratégia de valorização e gestão continuada. As aquisições de obras foram retomadas em 2019 e mantêm-se desde então através de um programa anual.
Passados quase 50 anos sobre a sua criação, a abertura do CACE Centro representa o primeiro espaço dedicado exclusivamente à conservação, estudo e divulgação deste património artístico público, reforçando a capacidade de resposta da colecção e a sua visibilidade junto dos cidadãos.



















