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140 anos de música reféns do impasse entre Câmara de Lisboa e Estamo
Passado um ano desde a luta por um novo espaço em Lisboa, a Academia de Amadores de Música mantém-se hoje a aguardar pela cedência de um edifício na Avenida de Berna, disse à Lusa o presidente desta instituição histórica.
Fundada em 1884, com mais de 140 anos de actividade contínua, a Academia de Amadores de Música (AAM) tem de sair das actuais instalações no Chiado, mas a data para que isso aconteça tem-se arrastado - primeiro tinha até Agosto de 2025, depois esse prazo foi prolongado por mais um ano e agora há a possibilidade de ser até ao final do ano lectivo 2026/2027, indicou Pedro Barata.
“É uma preocupação constante, porque a qualquer momento o proprietário pode encontrar um comprador. Assim que encontrar um comprador notifica-nos da nossa necessidade de sair”, afirmou, referindo-se à continuidade da AAM num edifício na Rua Nova da Trindade.
Desde 2022 que a academia tem alertado para o risco de ficar sem instalações para continuar a actividade de formação musical, por incapacidade para pagar a nova renda do edifício no Chiado, que passou de 542 euros para 3.728 euros por mês, e por o proprietário do imóvel pretender vender o prédio.
Por isso, apelou à ajuda da Câmara Municipal de Lisboa (CML) para encontrar um novo espaço na cidade, o que culminou com a decisão do executivo, aprovada por unanimidade em Julho de 2025, de comprar um imóvel na Avenida de Berna, propriedade da empresa pública Estamo, pelo valor de 7,27 milhões de euros.
De acordo com a CML, a compra desse imóvel vai “solucionar a situação da academia, garantindo o futuro da instituição, e permite igualmente que sejam adaptados os restantes andares a outras funcionalidades de relevante interesse público”.
Considerando a urgência, a deliberação de Julho de 2025 determinou que a AAM poderia dispor “imediatamente” do imóvel, para realizar as obras de adaptação dos espaços destinados ao seu funcionamento no ano lectivo 2026/2027, ficando a escritura de compra e venda com o município diferida para o ano de 2026.
No entanto, passou um ano e a informação de que a academia dispõe hoje é que “a Câmara está ainda a negociar os termos da compra do imóvel com a Estamo”, condições que “mudaram ao longo dos últimos meses”, tendo a empresa pública de gestão do património imobiliário do Estado solicitado “novas avaliações do imóvel”.
“Há uma intenção de fazer com que esse valor [7,27 milhões de euros] suba do lado do vendedor”, expôs.
Quanto à inclusão deste imóvel numa lista de imobiliário do Estado que o Governo pretende vender em hasta pública, o que ocorreu após a CML ter aprovado a compra, o presidente da academia adiantou que essa questão está já esclarecida: “O imóvel não vai ser vendido em hasta pública, isso está garantido.”
“Não diria que a Câmara falhou até ao momento. O que sei é que havia toda a intenção por parte da Câmara de ter fechado este processo de compra ainda no primeiro semestre de 2026”, declarou Pedro Barata.
A Academia encontra-se num impasse: não pode fazer obras na sede do Chiado, por estar prestes a sair, nem ocupar o edifício da Avenida de Berna, devido às negociações em curso entre a Estamo e a Câmara de Lisboa...
Sobre o prazo de até Agosto deste ano para sair das instalações no Chiado, o presidente da AAM disse que “era suposto” isso acontecer, mas o senhorio permitiu que se voltasse a adiar a data-limite, isto porque “ainda não encontrou um comprador” para o imóvel.
“E, por isso, ainda temos, neste momento, a possibilidade de ficar no Chiado até ao final do ano lectivo de 2026/2027, portanto, até Setembro de 2027”, revelou, acrescentando que tem havido um interesse crescente de compradores pelo imóvel que actualmente acolhe a instituição.
O representante considerou que o prolongamento da estadia no Chiado “não é assim um rasgo de sorte tão grande”, porque as actuais instalações “estão em muito mau estado”, inclusive uma das salas deixou de ser utilizada “porque o teto caiu”.
Neste momento, a academia está num dilema - não pode fazer obras nas instalações no Chiado, porque está na iminência de lá sair, e não pode ir para o imóvel na Avenida de Berna, porque “está a ser inviabilizada, na prática, essa passagem por causa da negociação que a Estamo está a querer fazer”, com a CML “arrastada para esta negociação” da compra que já tinha aprovado em julho de 2025.
Apesar de uma situação de “ponto morto”, o presidente do AAM manifestou-se “firmemente convicto” de que a CML vai cumprir com o compromisso de ceder parte do imóvel na Avenida de Berna, onde a academia pretende criar “um polo artístico, um polo cultural importante da cidade”.
“É do interesse de todos, inclusivamente do Governo e da Câmara, que a Academia sobreviva, que a Academia tenha melhores condições ainda para fazer um serviço que é iminentemente público”, defendeu, referindo que a AAM é uma instituição privada, com 320 alunos, dos quais cerca de 200 são de escolas maioritariamente públicas.
Entretanto, em resposta à Lusa, o vice-presidente da CML, Gonçalo Reis (PSD), assegurou hoje à tarde que a autarquia mantém o interesse na aquisição do imóvel na Avenida de Berna, para instalar a AAM, e indicou que o investimento se encontra previsto no orçamento e integrado no plano de investimentos da CML, estando "a trabalhar em articulação com a Estamo, no sentido de formalizar esta operação, logo que estejam reunidas as condições necessárias para o efeito".
Lusa/DI


















