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Opinião
Bruno de Carvalho Matos, Engenheiro Civil

Bruno de Carvalho Matos, Engenheiro Civil

Uma Expo 98 todos os anos: a Era dos Megaprojetos em Portugal

29 de maio de 2026

Portugal prepara-se para entrar num dos maiores ciclos de investimento infraestrutural da sua história recente. Entre o novo aeroporto de Lisboa, a alta velocidade ferroviária, a terceira travessia do Tejo, os investimentos energéticos, os data centers e os grandes projetos urbanos, o país poderá viver uma transformação sem precedentes desde a segunda metade do século XX - num esforço económico comparável, em escala anual, à construção de uma nova Expo 98 todos os anos.

Esta dinâmica surge num contexto internacional igualmente marcado por uma forte aceleração do investimento em infraestruturas. Estima-se que, até 2050, o investimento global no setor ultrapasse os 130 biliões de euros, impulsionado pela urbanização, transição energética, digitalização e inteligência artificial. Paralelamente, estima-se que cerca de 75% do ambiente construído que existirá em 2050 ainda não exista atualmente.

Este tipo de projetos, pela sua escala, complexidade e impacto no território, economia e sociedade, enquadra-se no conceito de megaprojetos. De facto, enquanto num projeto tradicional (e.g. edifício, estrada ou hospital) os objetivos são mais limitados, existem menos interdependências e intervenientes e o impacto é sobretudo local, num megaprojeto o contexto é caracteristicamente global, envolvendo múltiplas entidades públicas e privadas, forte interdependência, dimensão política e institucional, planeamento territorial e impacto urbano e económico estrutural.

Por exemplo, o novo aeroporto de Lisboa não depende apenas da construção das pistas, mas também dos acessos rodoviários e ferroviários, da expansão energética, das redes de água, das telecomunicações, da logística, do ordenamento do território e da habitação. Uma alteração numa única componente pode afetar financiamento, cronogramas, contratos, mobilidade, impacto ambiental e aprovação política. Esta interdependência torna particularmente complexa a gestão deste tipo de projetos, que, além das vertentes técnica, operacional e financeira, abrangem dimensões políticas, institucionais, regulatórias, sociais e reputacionais. Neste sentido, a governance passa a ser tão importante quanto a engenharia e o risco deixa de ser local para passar a ser sistémico.

Os megaprojetos podem trazer vários benefícios, como o crescimento económico do país, ao estimularem outras indústrias além da engenharia e construção (e.g. metalomecânica, cimento, energia, tecnologia, logística e imobiliário) e criarem subsequentemente milhares de empregos; o aumento da produtividade nacional, dado que a modernização das infraestruturas potencia a redução de tempos, ineficiências, congestionamentos e custos logísticos; e a atração de investimento estrangeiro, ao serem valorizados países com infraestruturas modernas e forte conectividade.

Os principais desafios, além dos riscos intrínsecos à gestão deste tipo de projetos (e.g. mudanças políticas, alterações de âmbito, oposição ambiental ou governance fraca), incluem problemas estruturais que historicamente afetam o setor da construção, como a escassez de mão de obra qualificada, a baixa produtividade, o défice tecnológico, as dificuldades regulatórias e a fragmentação institucional. Estes desafios tendem naturalmente a agravar-se quando vários megaprojetos decorrem em simultâneo.

As medidas a tomar passam, por exemplo, por criar uma estratégia nacional de competências, reforçando o ensino técnico, modernizando a engenharia e atraindo talento internacional; por industrializar a construção através de tecnologias como a pré-fabricação, modularização, automação, robótica e construção offsite; por capacitar empresas e equipas para a gestão de megaprojetos; e por desenvolver uma visão integrada de longo prazo para mobilidade, energia, habitação, logística e urbanismo. Tudo isto exigirá também estabilidade regulatória e continuidade estratégica ao longo de vários ciclos governativos.

Mais do que um conjunto de grandes obras públicas, este ciclo de investimento poderá influenciar profundamente a forma como Portugal cresce, atrai investimento, organiza o território e desenvolve as suas cidades. Mobilidade, habitação, energia, logística e competitividade económica estarão cada vez mais interligadas.

Neste contexto, a verdadeira questão será saber se o país conseguirá transformar a escala destes investimentos numa oportunidade de modernização estrutural e aumento de produtividade. Porque, mais do que construir infraestruturas, o verdadeiro desafio estará na capacidade institucional, técnica, política e humana para executar simultaneamente vários projetos de dimensão histórica.

Bruno de Carvalho Matos

Engenheiro Civil

*Texto escrito com novo Acordo Ortográfico