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Tem um caderno de receitas de família guardado numa gaveta? A Universidade de Coimbra quer conhecer essas iguarias e a sua história

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Tem um caderno de receitas de família guardado numa gaveta? A Universidade de Coimbra quer conhecer essas iguarias e a sua história

16 de setembro de 2026

Há cadernos que guardam muito mais do que receitas. Entre páginas manuscritas, manchas deixadas pelo uso, anotações e recortes acumulados ao longo dos anos, escondem-se histórias de mães, avós, pais e amigos — saberes transmitidos entre gerações e memórias construídas à volta da mesa. É precisamente à procura destes objetos, e das histórias que os acompanham, que o Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (CECH) da Universidade de Coimbra lança agora um apelo a pessoas de todo o país. A iniciativa proporciona também a oportunidade de descobrir, quem sabe?, receitas de  um património gastronómico que urge preservar.

Uma exposição feita de memórias familiares

O CECH está a preparar a exposição "Cadernos de Receitas de Família", que estará patente entre 21 de outubro e 20 de novembro de 2026, na Sala do Catálogo da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Para a construir, o centro procura cadernos de receitas manuscritos — antigos ou recentes — que carreguem consigo uma história familiar ou afetiva significativa.

Pode ser o caderno de uma avó, passado de geração em geração; um conjunto de receitas reunidas por diferentes membros da mesma família; um pequeno bloco guardado há décadas numa gaveta; ou até um caderno mais recente, onde alguém regista os pratos e sabores que mais importam. Mais do que a antiguidade ou o estado de conservação, o que interessa aos organizadores é a história por trás de cada caderno: quem escreveu as receitas, de quem foram aprendidas, como chegou o caderno às mãos de quem hoje o guarda, e que significado continua a ter.



"Grandes Obras da Literatura Culinária" que vivem numa gaveta

Ao classificar estes objetos quotidianos como verdadeiras "Grandes Obras da Literatura Culinária", a exposição pretende chamar a atenção para o valor cultural, social e emocional de um património que, na maioria das vezes, nunca chega a um arquivo ou biblioteca — mas que constitui uma forma preciosa de preservar e transmitir conhecimento entre gerações.

Carmen Soares, investigadora e coordenadora científica do CECH, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, explica a motivação por trás da iniciativa: "Um caderno de receitas de família nunca guarda apenas receitas. Guarda pessoas, relações, gestos, memórias e formas de viver que foram sendo transmitidas entre gerações." Segundo a investigadora, o objetivo é mostrar que "aquilo que tantas vezes permanece esquecido numa gaveta pode ser uma fonte extraordinária para conhecermos a nossa história e a nossa cultura alimentar".

A iniciativa não coloca barreiras linguísticas nem de nacionalidade. "O património alimentar familiar não tem fronteiras. As famílias que vivem no nosso país não são todas portuguesas. Por isso não nos interessa em que língua esse caderno de receitas está escrito. O importante é a história de família que ele conta!", sublinha Carmen Soares.

Como participar

O apelo é dirigido a qualquer pessoa residente em Portugal, independentemente da sua nacionalidade, sendo aceites cadernos escritos em qualquer idioma. Quem tiver em casa um caderno de receitas manuscrito com uma história para contar pode submetê-lo através do formulário disponível na página da iniciativa, até 5 de outubro de 2026.

Os cadernos selecionados serão cedidos temporariamente para a exposição, sendo depois devolvidos aos respetivos proprietários.

Fica, assim, o convite: abrir aquela gaveta esquecida, folhear um caderno que talvez já ninguém use, e redescobrir as pessoas, os gestos e os momentos que continuam vivos nas suas páginas.