
Eduardo Souto Moura - fotografia de Juan Rodriguez
Souto de Moura: "Trocava prémios por bons projectos de habitação"
O arquitecto português Eduardo Souto de Moura afirmou esta segunda-feira, em Barcelona, que trocaria todos os prémios que recebeu ao longo da carreira pela oportunidade de desenvolver projectos de habitação, defendendo uma resposta mais eficaz à actual crise habitacional.
À margem da cerimónia em que recebeu a Medalha de Ouro da União Internacional de Arquitectos (UIA), a mais elevada distinção atribuída pela organização, o Prémio Pritzker de 2011 sublinhou que a prioridade deve estar na construção de habitação e não no reconhecimento individual.
"O mais importante de tudo é a realidade. E só a realidade nos leva ao trabalho e às soluções e ao que interessa. Nada de utopias", afirmou aos jornalistas, acrescentando que "a coisa mais importante de todas é trabalhar na habitação, que é o que é preciso" neste momento.
Apesar de considerar a distinção da UIA "um enorme reconhecimento", Souto de Moura admitiu que preferia estar envolvido em projectos capazes de responder às dificuldades de acesso à habitação.
"Eu fico muito contente com os prémios, mas trocava os prémios por saber de bons projetos de habitação que pudesse fazer e em que pudesse ajudar."
Estado deve assumir construção de habitação social
O arquitecto defendeu igualmente uma maior intervenção do Estado na promoção de habitação social, considerando que Portugal reúne todas as condições para aumentar a oferta habitacional.
Segundo Souto de Moura, existem terrenos, financiamento e profissionais qualificados, mas continua a faltar capacidade de execução.
"Existem todas as condições para se fazer casas. Há terreno. Há dinheiro. Há bons arquitetos. Se há coisa que Portugal tem, é futebolistas e arquitetos. E as casas não aparecem."
Na sua perspectiva, o principal obstáculo reside na organização e na coordenação dos processos. "O problema é de organização, de logística. Não se percebe. É preciso quebrar este enguiço de fazer casas."
Reunião entre Portugal e Espanha para discutir soluções
O arquitecto revelou ainda ter reunido, durante a manhã, com os secretários de Estado da Habitação de Portugal e de Espanha, a quem propôs a realização de um encontro multidisciplinar dedicado à procura de soluções para a crise da habitação.
Segundo explicou, a iniciativa foi bem acolhida por ambos os responsáveis governamentais e deverá concretizar-se em breve, na cidade do Porto.
Medalha de Ouro distingue percurso internacional
Eduardo Souto de Moura tornou-se o segundo arquitecto português a receber a Medalha de Ouro da União Internacional de Arquitectos, depois de Álvaro Siza Vieira, distinguido em 1992.
Criada em 1984 e atribuída de três em três anos, a Medalha de Ouro da UIA é considerada pela organização a mais elevada distinção internacional atribuída por arquitectos aos seus pares, reconhecendo contributos excepcionais para a arquitectura mundial.
A cerimónia decorreu na Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, obra emblemática de Antoni Gaudí, no âmbito do Congresso Mundial de Arquitectura, que decorre na capital catalã até 2 de julho.
Além da homenagem oficial da UIA, Souto de Moura é também distinguido com um programa organizado pela Ordem dos Arquitectos, pela Casa da Arquitectura e pela Embaixada de Portugal em Espanha, que inclui um debate sobre arquitectura contemporânea e a inauguração da instalação "Ucronia", baseada em desenhos inéditos do arquiteto realizados na década de 1970.
DI com LUSA















