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Sandra Soares, CEO da Brain Power

Sandra Soares, CEO da Brain Power

Sandra Soares: "Flexibilidade não pode ser sinónimo de precariedade"

12 de outubro de 2026

O mercado de trabalho está a mudar, com profissionais cada vez mais atentos à flexibilidade, à autonomia e à conciliação entre a vida pessoal e profissional. Mas a liberdade de escolher como trabalhar não significa, necessariamente, querer abdicar de estabilidade ou proteção. Foi a partir desta convicção que Sandra Soares criou o Grupo Brain Power, há 12 anos, com o objetivo de aproximar as vantagens do trabalho independente das garantias associadas ao trabalho por conta de outrem. Em entrevista ao Diário Imobiliário, a CEO explica os desafios que continuam a marcar a realidade dos consultores e das empresas, defende um enquadramento laboral capaz de acompanhar as novas formas de trabalhar e perspetiva um futuro em que a tecnologia terá um papel crescente, sem retirar centralidade às pessoas.

O Grupo Brain Power nasceu com a missão de dar mais estabilidade e direitos laborais a trabalhadores independentes. Que necessidades concretas do mercado identificaram e que continuam por responder?

Quando criei a Brain Power, percebi que havia muitos profissionais que gostavam genuinamente da liberdade de trabalhar de forma independente, mas que sentiam falta da segurança e da proteção de um trabalhador por conta de outrem.

E eu sempre achei que não devíamos ter de escolher entre uma coisa e outra. Porque é que uma pessoa, para ter liberdade profissional, tem necessariamente de abdicar de estabilidade? Foi muito a partir desta pergunta que começámos a construir o nosso modelo.

Hoje, continuo a sentir exatamente essa necessidade. As pessoas querem autonomia, mas também querem segurança, proteção e tranquilidade para poderem construir a sua vida.

O vosso modelo transforma trabalhadores independentes em trabalhadores dependentes, mantendo algumas das vantagens associadas à independência. Como funciona este conceito na prática e o que o distingue das soluções tradicionais de contratação?

Eu costumo explicar o nosso modelo de uma forma muito simples: tentamos juntar a liberdade do trabalho independente à segurança do trabalho dependente.

O profissional continua a ter autonomia e a dinâmica própria da sua atividade, mas passa a ter um enquadramento laboral que lhe proporciona maior estabilidade e proteção.

Para mim, a diferença está precisamente aí. Eu não quero retirar liberdade a um profissional para lhe dar segurança. Quero que ele possa continuar a sentir-se livre, mas sabendo que tem uma estrutura que o acompanha e protege.

Muitos dos vossos parceiros e clientes são consultores. Que desafios específicos identificam atualmente entre estes profissionais, nomeadamente ao nível da estabilidade, proteção social e conciliação entre liberdade e segurança?

Ao longo destes anos tenho falado com muitos consultores e percebo perfeitamente aquilo que valorizam. Gostam da autonomia, de gerir o seu tempo, de construir a sua carteira de clientes e de sentir que o seu rendimento também depende do seu desempenho.

Mas depois existe o outro lado: a irregularidade dos rendimentos, a falta de previsibilidade ou as preocupações relacionadas com a proteção social.

E aquilo que sinto é que estes profissionais não querem deixar de ser independentes. Querem continuar a ter liberdade, mas querem vivê-la com mais segurança. É esse equilíbrio que procuramos proporcionar.

A flexibilidade tornou-se um dos principais fatores na relação entre profissionais e empresas. É possível conciliar flexibilidade laboral com direitos e proteção equivalentes aos de um trabalhador por conta de outrem?

Acredito absolutamente que sim. Aliás, para mim, esse é um dos grandes desafios do futuro do trabalho e é precisamente a esse desafio que a Brain Power responde há 12 anos. Durante muitos anos pareceu que tínhamos de escolher: ou tínhamos segurança e aceitávamos um modelo mais rígido, ou tínhamos flexibilidade e perdíamos alguma proteção. Eu não acredito que tenha de ser assim.

As pessoas querem organizar melhor o seu tempo e conciliar a vida profissional com a pessoal. As empresas têm de acompanhar essa mudança. Flexibilidade não pode ser sinónimo de precariedade.

Num mercado cada vez mais competitivo na atração e retenção de talento, que papel pode desempenhar um modelo como o da Brain Power na capacidade das empresas para captar e manter profissionais qualificados?

Eu acredito muito que hoje não se retém uma pessoa apenas com um bom salário. É importante, claro, mas já não chega.

As pessoas procuram qualidade de vida, reconhecimento, flexibilidade, boas condições e querem sentir que são valorizadas. As empresas que perceberem isso mais rapidamente vão estar em vantagem na atração de talento.

Há uma frase que resume muito a minha forma de pensar: reter talento não é prender pessoas. É criar condições para que elas queiram ficar. E é também isso que procuramos fazer na Brain Power.

A digitalização e a inteligência artificial estão a transformar o trabalho e o setor da consultoria. Que impacto estão estas mudanças a ter no perfil dos profissionais e nas necessidades das empresas?

Eu vejo a inteligência artificial como uma enorme transformação, mas também como uma enorme oportunidade. Vai haver tarefas que deixarão de ser feitas da mesma forma e outras que serão automatizadas. Isso obriga-nos a aprender e a adaptar-nos constantemente.

Ao mesmo tempo, acredito que as características mais humanas vão ganhar ainda mais importância. A criatividade, a empatia, a comunicação, o pensamento crítico ou a capacidade de criar relações não desaparecem com a tecnologia.

Eu acredito na tecnologia, mas acredito ainda mais nas pessoas que sabem utilizá-la.

O vosso posicionamento assenta numa relação próxima, baseada na confiança e transparência. Como se constrói essa relação quando trabalham simultaneamente com empresas e com profissionais?

Para mim, constrói-se estando presente e com confiança. Parece uma resposta simples, mas é mesmo aquilo em que acredito.

É ouvir as pessoas, explicar as coisas com transparência, responder quando existe um problema e não aparecer apenas quando tudo está bem.

A Brain Power cresceu muito, mas há uma coisa que eu não quero que se perca com o crescimento: a proximidade. Porque eu posso falar de clientes, parceiros, empresas ou consultores, mas no final estou sempre a falar de pessoas.

A legislação laboral e as formas de prestação de trabalho estão também a evoluir. Considera que o enquadramento atual acompanha a realidade de quem trabalha de forma independente e das empresas que recorrem a estes profissionais?

Acho que temos feito um caminho importante, mas também acho que o mercado de trabalho está a mudar mais depressa do que alguma legislação consegue acompanhar.

Hoje temos trabalho remoto, novas profissões, pessoas que trabalham por projetos e carreiras completamente diferentes daquelas que existiam há 20 anos.

Naturalmente, temos de proteger as pessoas e combater a precariedade. Mas também temos de perceber que nem toda a flexibilidade é precariedade. Há profissionais que escolhem genuinamente trabalhar de outra forma. O desafio é criar regras que protejam sem impedir essa liberdade.

Quais são atualmente os principais desafios para o crescimento do Grupo Brain Power e que novas soluções ou áreas de negócio estão a ser equacionadas para responder às necessidades dos vossos parceiros e clientes?

O meu maior desafio é muito claro: quero continuar a crescer sem perder a nossa essência. Quanto maior é uma empresa, mais tecnologia, processos e estrutura são necessários. Mas eu não quero que isso nos afaste das pessoas.

Também quero continuar a levar a Brain Power a novas áreas. Começámos muito ligados ao imobiliário e hoje já trabalhamos com profissionais de diferentes setores. Quero continuar esse caminho, perceber onde existem novas necessidades e encontrar soluções para elas.

Olhando para os próximos cinco anos, como imagina o futuro do trabalho independente e da consultoria em Portugal? E que papel pretende que o Grupo Brain Power desempenhe nessa transformação?

Eu vejo um futuro com muito mais liberdade profissional. As carreiras serão menos lineares, as pessoas vão mudar mais de projetos e vão querer ter uma palavra cada vez maior sobre onde, como e com quem trabalham.

Mas há uma coisa que não vai desaparecer: a necessidade de segurança. Podemos querer liberdade e, ao mesmo tempo, querer estabilidade para construir uma família, comprar uma casa ou simplesmente viver com maior tranquilidade.

É precisamente aí que eu quero que a Brain Power esteja. Quero que sejamos uma ponte entre liberdade e segurança e, acima de tudo, uma empresa que ajude a tornar o futuro do trabalho mais humano.

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