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Martim de Botton, CEO do LACS

Martim de Botton, CEO do LACS

Quantos metros quadrados estão a ser desperdiçados?

11 de agosto de 2026

Quando se discute o futuro do mercado de escritórios em Portugal, o debate centra-se frequentemente na necessidade de ampliar a oferta. Lisboa e Porto continuam a atrair empresas, talento e investimento, alimentando a percepção de que é preciso construir mais para responder à procura. Contudo, há uma questão que merece maior atenção: quantos metros quadrados já existem e continuam por aproveitar?

Num contexto em que a sustentabilidade deixou de ser um factor diferenciador para se tornar num dos requisitos, a resposta ao défice de escritórios não deve passar exclusivamente pela construção de novos edifícios. Pelo contrário, uma parte significativa da solução pode estar no reaproveitamento do património edificado que já existe nas nossas cidades.

Várias regiões do país possuem um número relevante de edifícios devolutos, subutilizados ou desadequados às exigências actuais do mercado. Muitos destes imóveis encontram-se em localizações centrais, bem servidas por transportes públicos e integradas em zonas urbanas consolidadas. Mas, apesar do seu potencial, continuam fora do circuito económico e tudo isto enquanto se procura criar uma nova oferta através de processos de construção longos, dispendiosos e com elevado impacto ambiental.

É precisamente aqui que a sustentabilidade e o imobiliário se cruzam. O sector da construção é responsável por uma parte significativa das emissões globais de carbono e do consumo de recursos naturais. E quando falamos de ESG, não podemos limitar a conversa à eficiência energética dos novos edifícios ou às certificações ambientais obtidas após a sua conclusão. Devemos olhar para o ciclo de vida completo dos activos e reconhecer que o edifício mais sustentável é, muitas vezes, aquele que já existe.

Reabilitar, adaptar e devolver ao mercado imóveis que se encontram sem utilização representa uma oportunidade concreta para reduzir a pegada ambiental do sector. Ao evitar demolições e novas construções preservam-se materiais, reduz-se o consumo de energia e minimizam-se as emissões associadas à produção e transporte de novos recursos. Trata-se de uma abordagem alinhada com os princípios da economia circular e com os objectivos de descarbonização que empresas, investidores e cidades assumiram para as próximas décadas.

Mas os benefícios não são apenas ambientais. Existe também uma dimensão social relevante. A revitalização de edifícios devolutos contribui para dinamizar bairros, atrair actividade económica e reforçar a utilização dos centros urbanos. Em vez de expandir continuamente as cidades para responder a novas necessidades, podemos potenciar aquilo que já faz parte do tecido urbano, promovendo uma ocupação mais equilibrada e sustentável do território.

Do ponto de vista económico, esta estratégia permite ainda acelerar a disponibilização de espaços para empresas. Num mercado em que a procura por soluções flexíveis continua a crescer, a reconversão de edifícios existentes pode ser mais rápida do que o desenvolvimento de novos projetos de raiz, reduzindo tempos de espera e criando valor para proprietários, operadores e utilizadores.

Naturalmente, o reaproveitamento de edifícios não resolve, por si só, todos os desafios da oferta de escritórios. Existem casos em que a construção nova continuará a ser necessária. Contudo, antes de procurarmos novas áreas para desenvolver, devemos questionar-nos se estamos a utilizar de forma eficiente os recursos já disponíveis.

Importa, ao mesmo tempo, destacar que a requalificação de edifícios devolutos deve privilegiar o uso mais adequado de cada activo. Habitação e espaços de trabalho não são objectivos incompatíveis, mas complementares para o desenvolvimento das cidades. O essencial é recuperar património hoje degradado e devolvê-lo à utilização, contribuindo para a revitalização urbana e para uma utilização mais eficiente do parque edificado existente.

O futuro das cidades será cada vez mais definido pela capacidade de conciliar crescimento económico com responsabilidade ambiental. Por esse motivo, o reaproveitamento de edifícios devolutos deve deixar de ser visto como uma alternativa e passar a ser encarado como uma prioridade estratégica.

Cidades como Lisboa e Porto têm uma oportunidade única para liderar esta transformação. Porque os metros quadrados que precisamos podem já estar construídos. O desafio está em encontrá-los, reabilitá-los e devolver-lhes vida.

Martim de Botton

CEO do LACS

*Texto escrito com novo Acordo Ortográfico