
Beatriz Rubio, CEO da RE/MAX Collection
O luxo fora das grandes cidades pode valorizar os territórios sem lhes retirar identidade
Durante muito tempo, o imobiliário de luxo foi associado aos bairros mais prestigiados das grandes cidades. Hoje, o mapa é mais amplo. Destinos de praia, zonas de natureza e territórios ligados ao lazer respondem à procura de quem valoriza espaço, privacidade e uma relação mais próxima com o lugar. A questão é saber como transformar investimento premium em desenvolvimento que também faça sentido para quem já vive nesses territórios.
O luxo não tem de destruir a identidade local. Pode, pelo contrário, contribuir para a sua valorizarão, desde que reconheça que a paisagem, a arquitetura, a gastronomia e a vida da comunidade são parte do que torna um destino atrativo. Uma intervenção de qualidade pode recuperar património, devolver função a edifícios devolutos e gerar procura para arquitetos, construtores e fornecedores da região. Quando respeita os materiais, a escala e a história do lugar, o investimento ajuda a prolongar aquilo que o distingue.
O impacto económico pode prolongar-se para além da construção. A gestão de propriedades, a manutenção, a hotelaria, a restauração e os serviços especializados podem criar emprego qualificado e oportunidades para negócios locais. Para que esse efeito seja duradouro, é essencial investir em formação e criar condições para que os profissionais possam construir uma carreira na região. Ter atividade económica não basta se quem a assegura não consegue viver perto dela.
A chegada de novos residentes e visitantes pode também dar viabilidade a serviços que antes tinham uma procura reduzida. Restaurantes, comércio especializado e ofertas culturais podem encontrar novos clientes e alcançar mercados internacionais, contribuindo para a projeção do território para além de um empreendimento ou de uma época do ano.
Existem ainda potenciais benefícios para as receitas locais e para as infraestruturas. A atividade económica e a tributação associadas aos imóveis podem reforçar recursos municipais, enquanto alguns projetos podem contribuir para melhorar acessos, redes e espaços públicos. Mas esta relação não é automática: é necessário avaliar os custos do crescimento e garantir que as melhorias beneficiam a comunidade, e não apenas áreas privadas.
É aqui que o planeamento se torna decisivo. Um território não deve ser avaliado apenas pela capacidade de atrair investimento, mas pela capacidade de o integrar. A pressão sobre a água, a mobilidade, os serviços e a habitação pode aumentar, sobretudo quando vários projetos avançam sem coordenação ou quando a atividade se concentra em poucos meses.
O crescimento sem planeamento pode criar desequilíbrios e comprometer a própria qualidade que atraiu os compradores. Uma praia congestionada, uma paisagem descaracterizada ou uma comunidade afastada do seu centro não representam uma evolução desejável. No segmento premium, preservar a qualidade do destino é também proteger o valor do investimento.
Por isso, é necessária uma visão pública que articule habitação, turismo, atividade económica e proteção do território. Os municípios têm um papel essencial na definição de prioridades, na gestão das infraestruturas e na exigência de qualidade urbanística. A oferta premium pode responder a uma procura específica, mas não substitui as necessidades habitacionais da população. Uma região que quer receber novos residentes e criar emprego precisa também de permitir que trabalhadores, famílias e novas gerações permaneçam.
Proteger a autenticidade exige decisões concretas: respeitar a escala das construções, recuperar património com critério, valorizar produtores locais e preservar o acesso aos espaços públicos. A identidade não se conserva apenas numa fachada; mantém-se na utilização dos lugares e na presença das pessoas.
Beatriz Rubio
CEO da RE/MAX Collection















