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Morre Nuno Portas, arquitecto e pensador urbano que fez da cidade o seu ofício

Foto: cortesia Universidade do Porto

Morre Nuno Portas, arquitecto e pensador urbano que fez da cidade o seu ofício

28 de julho de 2025

Morreu este domingo, aos 90 anos, o arquitecto Nuno Portas, uma figura central do pensamento urbano em Portugal, cuja vida foi marcada por uma dedicação ímpar à arquitectura, ao urbanismo e ao serviço público.

Académico, investigador e dirigente político, Portas destacou-se ao longo de mais de seis décadas como defensor intransigente do “direito à cidade” e da habitação condigna, valores que nortearam a sua obra teórica e prática. Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo após o 25 de Abril, foi o rosto da criação do SAAL — Serviço de Apoio Ambulatório Local — e um dos principais impulsionadores da política urbana democrática no país.

Nascido em São Bartolomeu, Vila Viçosa, a 23 de Setembro de 1934, Nuno Rodrigo Martins Portas formou-se em Arquitectura em 1959, pelas Escolas de Belas Artes de Lisboa e Porto. Dois anos antes, já trabalhava no atelier de Nuno Teotónio Pereira, com quem manteria uma longa e frutuosa colaboração, nomeadamente nos projectos para os bairros dos Olivais, em Lisboa. “Era uma pessoa com uma enorme cultura e empenho em ser verdadeiro”, diria mais tarde sobre o colega e mestre.

A sua carreira foi marcada pela intersecção entre prática profissional, investigação e intervenção cívica. Dirigiu a revista Arquitectura, recebeu o Prémio Gulbenkian de Crítica de Arte (1963) e foi dos primeiros a escrever sobre Álvaro Siza, em Portugal e no estrangeiro.



Entre 1962 e 1974, coordenou o núcleo de Arquitectura, Habitação e Urbanismo do LNEC, onde consolidou uma abordagem crítica e interdisciplinar ao planeamento urbano, antecipando debates sobre cidadania, exclusão e transformação urbana. Para muitos colegas, este trabalho constituiu um “momento fundador” do pensamento urbanístico moderno em Portugal.

A sua intervenção política deu-se em plena transição democrática: entre 1974 e 1975 integrou os três primeiros Governos Provisórios, onde lançou bases para o cooperativismo habitacional, iniciou os Planos Directores Municipais e concebeu políticas para responder à emergência social provocada por décadas de ditadura.

Também na academia deixou uma marca indelével. Leccionou nas Escolas de Belas Artes de Lisboa e Porto, ajudando a fundar a Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde se tornou professor catedrático em 1989. Concebeu o primeiro mestrado em Planeamento e Projecto do Ambiente Urbano e foi professor convidado em instituições como a Escola Técnica de Barcelona, o Politécnico de Milão, o Instituto de Urbanismo de Paris e a Universidade Federal do Rio de Janeiro.


"A luta pela conquista dos direitos do arquitecto a arquitectar tem de ser firme, mas cautelosa e progressiva"

Fora do país, liderou o Planeamento Intermunicipal de Madrid (1980-1983) e colaborou com as Nações Unidas, a União Europeia e o arquitecto Oriol Bohigas em projectos para o Rio de Janeiro. Em Cabo Verde, ajudou a estruturar a legislação urbanística.

Entre os seus projectos mais notáveis incluem-se o plano do campus da Universidade de Aveiro, o primeiro plano geral da Expo 98, e os estudos de requalificação de Chelas e do centro histórico de Guimarães.

Cineclubista militante e crítico de cinema, assinou numerosos textos sobre a sétima arte. Chegou mesmo a realizar, nos anos 1950, uma curta-metragem sobre o serviço militar. À RTP entregou a série documental “À Volta da Cidade” (1978-1979), em que abordava, com olhar crítico e pedagógico, temas como habitação, património e crescimento urbano.

Foi distinguido com diversos prémios nacionais e internacionais, incluindo o Prémio Valmor (1975), a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Aveiro e pelo Politécnico de Milão, e o Prémio Sir Patrick Abercrombie da UIA.

A exposição retrospectiva O Ser Urbano – Nos Caminhos de Nuno Portas, apresentada em Guimarães 2012 e no Centro Cultural de Belém, sintetizou o legado de um arquitecto que sempre viu na cidade um espaço de construção democrática.

Pai dos políticos Paulo e Miguel Portas (1958-2012) e da jornalista e empresária Catarina Portas, Nuno Portas defendia uma arquitectura com memória, crítica e responsabilidade social. Como escreveu em 2017, “a luta pelos direitos do arquitecto a arquitectar tem de ser firme, mas cautelosa e progressiva”, porque, sublinhava, “não há linguagem sem memória”.

DI/Lusa