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Pedro Barros Rolo, CEO e Partner da Havos

Pedro Barros Rolo, CEO e Partner da Havos

Family Offices podem duplicar até 2030, com o imobiliário acima de 50% dos ativos sob gestão

21 de outubro de 2026

A crescente complexidade da gestão patrimonial e a necessidade de assegurar a preservação e valorização da riqueza ao longo das gerações estão a impulsionar a evolução dos Family Offices em Portugal. O Havos Investment Pulse aponta para a possibilidade de estas estruturas passarem de cerca de 250 para 500 até 2030. Em entrevista ao Diário Imobiliário, Pedro Barros Rolo, CEO e Partner da Havos, analisa os fatores que sustentam esta tendência, o peso do imobiliário nas carteiras familiares e as oportunidades e desafios que se colocam a estes investidores num mercado cada vez mais exigente.

O Havos Investment Pulse aponta para uma possível duplicação dos Family Offices em Portugal, de cerca de 250 atualmente para 500 até 2030. O que está a impulsionar este crescimento?

O crescimento dos Family Offices está associado a uma maior profissionalização da gestão dos grandes patrimónios familiares. À medida que a natureza dos diferentes tipos de ativos patrimoniais se tornam mais complexos, aumenta a necessidade de estruturar as organizações para que as tomadas de decisões de investimento sejam mais informadas e acompanhadas de forma a assegurar uma visão de longo prazo.

Em Portugal, este movimento acompanha uma transformação mais ampla do investimento privado. O Family Office deixa de ser apenas uma estrutura de acompanhamento do negócio familiar e passa a assumir um papel mais patrimonial e estratégico na gestão e alocação do capital familiar.

A nossa previsão de uma possível duplicação até 2030 deve, por isso, ser entendida não apenas como um aumento do número de estruturas, mas como um sinal da crescente sofisticação do capital privado em Portugal.

Portugal está a assistir a um aumento efetivo do número de grandes patrimónios familiares ou estamos sobretudo perante uma maior profissionalização e formalização de estruturas que já existiam?

Como já referido anteriormente, a tendência que identificamos é sobretudo de maior profissionalização e organização da gestão patrimonial.

Nem todo o crescimento dos Family Offices significa necessariamente que estejam a surgir novos grandes patrimónios. Em alguns casos, estamos perante famílias que já tinham património e estruturas de gestão, mas que passam a organizar essa gestão de forma mais profissional e especializada as outras áreas de investimento, incluindo o imobiliário.

É uma mudança importante porque altera a forma como as decisões são tomadas: existe maior preocupação com diversificação, risco, sucessão e preservação do património ao longo das gerações.

Que perfil têm atualmente os Family Offices em Portugal e como têm evoluído as suas necessidades de investimento e gestão patrimonial nos últimos anos?

É um universo diversificado e não existe um perfil único de Family Office em Portugal. O que identificamos como tendência é uma crescente sofisticação das suas necessidades, bem como das áreas de atuação/ interesse.

A gestão deixa progressivamente de estar centrada apenas na preservação de determinados ativos e passa a envolver uma visão mais integrada do património, das oportunidades de investimento e da identificação e mitigação dos riscos.

Assim, consideramos que deverá também haver uma maior preocupação em estruturar decisões para o longo prazo, sobretudo num contexto em que a sucessão entre gerações e a diversificação do património assumem uma importância crescente.

A intervenção da Havos é na gestão imobiliária do património e portfolio dos Family Offices. É aí que somos experts e onde nos conseguimos claramente diferenciar das restantes consultoras imobiliárias.

A sucessão geracional é apontada como um dos temas que está a ganhar importância. De que forma a passagem do património entre gerações está a alterar as estratégias de investimento das famílias?

A sucessão obriga a pensar na preservação e no crescimento patrimonial para além de uma única geração.

Isso aumenta a necessidade de adaptar as estratégias de investimento de diferentes tipos de ativos com objetivos e perfis adequados a cada organização familiar.

É precisamente aqui que a profissionalização da área imobiliária ganha cada vez mais uma maior importância na construção de um portfolio imobiliário com caraterísticas diversificadas, centradas :

- perfil de ativo imobiliário; - no horizonte temporal; - na liquidez e no risco

Que peso tem atualmente o imobiliário nas carteiras dos Family Offices portugueses e o que explica a atratividade desta classe de ativos para investidores com uma perspetiva de longo prazo?

O que observamos é que o imobiliário continua a ter um papel relevante no investimento privado e que os ativos reais e tangíveis mantêm uma importância significativa para investidores com uma perspetiva de longo prazo.

A atratividade do imobiliário está relacionada com a possibilidade de combinar preservação patrimonial, geração de rendimento e criação de valor ao longo do tempo. Para uma família que pensa em várias gerações, essa perspetiva de longo prazo pode ser particularmente relevante.

Da nossa experiência, e por indicadores recolhidos, até a nível internacional, o peso médio do imobiliário no património sob gestão dos Family Offices portugueses – e aqui importa diferenciar património sob gestão de fortuna total – representará um valor igual ou superior a 50% desse valor.

Está a verificar-se uma mudança do perfil de investimento, com os Family Offices a procurarem maior diversificação do imobiliário? Que ativos estão a ganhar maior relevância?

A diversificação é uma tendência natural à medida que os Family Offices se profissionalizam. O objetivo passa cada vez mais por construir uma estratégia patrimonial equilibrada e não depender excessivamente de uma única classe de ativos.

Mais importante do que identificar uma classe de ativos vencedora é perceber que estas estruturas estão a olhar para o património de forma mais integrada, como uma classe de ativos com um peso muito significativo no valor patrimonial global, avaliando diferentes oportunidades com perfis adequados a cada organização familiar.

Devemos olhar para o ativo imobiliário patrimonial numa perspetiva completa. Variáveis como (1) o tipo de imóvel (logística, residencial, serviços, comércio, ...), (2) localização (macro e mico, externa e interna) e (3) indicadores económicos dos projetos (margens e rentabilidades associadas (IRR e yields) definirão a estratégia e composição da carteira.

Num contexto de maior profissionalização, os Family Offices estão a assumir um papel mais próximo do de investidores institucionais, nomeadamente na dimensão, sofisticação e horizonte temporal dos investimentos?

Existe uma aproximação sobretudo ao nível da sofisticação e disciplina do processo de decisão.

Os Family Offices estão progressivamente a adotar uma visão mais estruturada sobre investimento, com maior atenção à diversificação, gestão de risco e horizonte temporal.

Isso não significa que passem a ter exatamente a mesma lógica dos investidores institucionais. Mantêm características próprias, nomeadamente uma maior ligação à preservação e continuidade do património familiar.

Que papel podem estas estruturas desempenhar no mercado imobiliário português, sobretudo em áreas como habitação, reabilitação urbana, hotelaria ou projetos de desenvolvimento de maior escala?

Os Family Offices podem desempenhar um papel relevante enquanto fonte de capital privado com capacidade para trabalhar com horizontes de investimento mais longos.

No imobiliário, essa característica pode ser particularmente importante em projetos que exigem tempo, capacidade de execução e uma visão que ultrapasse a lógica de uma transação de curto prazo.

O impacto dependerá naturalmente das estratégias de cada estrutura e das oportunidades que encontrem no mercado. Mas, à medida que o número e a sofisticação destes investidores aumentam, é expectável que a sua influência no ecossistema de investimento português também cresça.

Quais são atualmente os principais desafios para os Family Offices que investem em Portugal — desde a fiscalidade e sucessão até ao acesso a oportunidades e à necessidade de diversificação internacional?

O momento e atual conjuntura também aumenta a exigência colocada à gestão destas estruturas. A sucessão, a diversificação, a gestão do risco e o acesso a oportunidades de investimento são desafios que exigem cada vez maior capacidade de análise e decisão.

No caso português, existe também a necessidade de garantir que o mercado consegue oferecer condições para que o capital de longo prazo encontre oportunidades de investimento com qualidade e capacidade de execução, bem como em condições de estabilidade política e, necessariamente, fiscal.

Para um Family Office, não basta encontrar um ativo interessante. É necessário perceber a estratégia, o risco, o horizonte de investimento e a capacidade de transformar essa oportunidade em valor. E nesse particular, a questão da estabilidade, em todas as suas vertentes (social, política e fiscal) ganha particular relevância.

Se a previsão de cerca de 500 Family Offices até 2030 se concretizar, que impacto poderá esta evolução ter no ecossistema de investimento português e no próprio mercado imobiliário?

Se esta evolução se concretizar, estaremos perante um reforço significativo do peso e da sofisticação do investimento privado em Portugal, com a consolidação deste tipo de estruturas.

Mais Family Offices não significam necessariamente mais capital global, mas potencialmente mais estruturado e mais profissionalizado.

No imobiliário, isso poderá traduzir-se numa maior exigência na seleção dos ativos e dos projetos e numa procura crescente por oportunidades capazes de gerar valor de forma sustentável.

No fundo, o mais relevante no respeitante ao número de Family Offices será a disponibilidade e qualidade do capital que estas estruturas representam e o impacto que conseguirão ter na economia e no mercado imobiliário português.