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Habitação
Especialistas apontam simplificação do licenciamento como medida mais eficaz para resolver crise da habitação

 

Especialistas apontam simplificação do licenciamento como medida mais eficaz para resolver crise da habitação

20 de julho de 2026

A crise da habitação em Portugal resulta sobretudo da conjugação de factores estruturais e conjunturais, sendo consensual entre os especialistas que a resposta passa por aumentar a oferta habitacional através de reformas nas políticas públicas, maior previsibilidade regulatória e cooperação mais estreita entre Estado e sector privado. São estas as principais conclusões da primeira edição do Housing Affordability & Public Policy Barometer, desenvolvido pelo Real Estate Futures Center da Porto Business School (PBS), cuja apresentação assinalou também o lançamento oficial deste novo centro da escola, dedicado à investigação aplicada e ao desenvolvimento de soluções para o mercado imobiliário.

Segundo o estudo, há elevado consenso quanto à natureza da crise: 61,1% dos inquiridos consideram que resulta de uma combinação equilibrada entre factores estruturais e conjunturais, 31,5% atribuem-na sobretudo a causas estruturais — escassez de oferta, morosidade dos licenciamentos e falta de solo disponível —, e apenas 6,5% responsabilizam principalmente factores conjunturais, como as taxas de juro, a inflação ou o aumento dos custos de construção.





Morosidade dos processos de licenciamento...

Entre os factores que mais contribuem para a crise, os especialistas atribuem maior relevância à escassez de oferta face à procura (4,50 pontos numa escala de um a cinco), seguida da morosidade dos processos de licenciamento (4,45), dos custos de construção (4,17), da baixa previsibilidade dos processos urbanísticos (4,11) e da instabilidade das políticas públicas (4,03). Surgem depois a insuficiência de habitação pública ou acessível, as alterações demográficas, a falta de solo urbano economicamente viável, a pressão da procura internacional, a fiscalidade sobre promoção, propriedade e transacção, os custos de financiamento, as exigências regulamentares e a baixa confiança de investidores e promotores.

Questionados sobre o principal obstáculo à produção de nova habitação, os especialistas apontam a falta de mão de obra como o maior entrave actual do sector, seguido dos elevados custos de construção, da incerteza regulatória, da morosidade do licenciamento, da falta de terrenos economicamente viáveis, do risco comercial, da fiscalidade e da dificuldade de acesso a financiamento.



A secretária de Estado da Habitação, Patrícia Gonçalves Costa.



Preços vão continuar a subir

Quanto à evolução do mercado nos próximos 12 meses, a maioria dos especialistas antecipa que os preços da habitação continuarão a subir entre 5% e 10%, seguindo-se a expectativa de aumentos até 5%; um número reduzido prevê estabilidade ou subidas acima de 10%, enquanto os cenários de descida recolhem apoio residual. Esta expectativa assenta sobretudo na percepção de que a nova construção continuará insuficiente para responder à procura, a que se somam os elevados custos de construção, a redução do poder de compra das famílias, o arrefecimento económico e a percepção de que as políticas públicas em vigor continuam insuficientes para alterar o equilíbrio entre oferta e procura.

Entre as medidas com maior potencial de impacto nos próximos dois anos, a simplificação efetiva dos processos de licenciamento destaca-se como a mais relevante, com pontuação média de 4,17, seguida da redução do IVA na construção de habitação acessível (3,96), maior previsibilidade urbanística (3,94), incentivos fiscais à promoção de habitação acessível (3,89), parcerias público-privadas (3,85), redução dos custos de contexto (3,81), industrialização da construção (3,71), mobilização de património público (3,70), incentivos fiscais ao arrendamento de longa duração (3,54) e linhas de financiamento bonificadas (3,40).



Necessidade de reformar estruturais...

Já ao nível das reformas estruturais necessárias no médio e longo prazo, os especialistas destacam a maior articulação entre Estado, municípios e sector privado (4,26), uma política fiscal estável orientada para o aumento da oferta (4,25), uma reforma profunda do licenciamento (4,14), o aumento da produtividade e a industrialização da construção (4,07), um planeamento urbano mais previsível (4,04) e um acordo de regime para a habitação (4,03), a par do reforço da habitação pública, do urbanismo preditivo baseado em dados, da urbanização pública e de novos modelos de arrendamento.

O estudo aponta ainda o sector privado como parte central da solução, através do reforço de parcerias público-privadas, do investimento institucional em projectos build-to-rent e da promoção de habitação apoiada por incentivos públicos. No plano tecnológico, os especialistas identificam a construção modular e industrializada como a inovação com maior potencial para aumentar a produção habitacional, seguida da construção off-site, da metodologia BIM e da inteligência artificial aplicada ao projecto e ao licenciamento — soluções que, segundo os participantes, poderão aumentar a produtividade, reduzir custos e prazos de execução e acelerar a disponibilização de nova habitação.



A secretária de Estado da Habitação com Bento Aires, director do Real Estate Futures Center



Uma estratégia de longo prazo

"O Barómetro demonstra que a crise da habitação exige uma estratégia de longo prazo, assente em políticas públicas estáveis, processos de licenciamento mais eficientes e um reforço da capacidade de aumentar a oferta de habitação a preços acessíveis", afirma Bento Aires, director do Real Estate Futures Center.

O novo centro de impacto da Porto Business School, dedicado a antecipar e acelerar a transformação do sector imobiliário em Portugal, está organizado em três áreas estratégicas — Housing & Urban Futures, Sustainable & Resilient Real Estate e Digital & Productive Real Estate — e pretende aproximar academia, empresas e decisores públicos, promovendo investigação aplicada e recomendações de política pública. O evento de lançamento contou com a participação da secretária de Estado da Habitação, Patrícia Gonçalves Costa, que interveio na abertura institucional e numa sessão sobre as novas políticas públicas de habitação e as alterações ao Regime Jurídico da Urbanização e Edificação, e integrou ainda um painel de discussão com representantes da academia e do sector empresarial sobre os desafios e oportunidades para o mercado imobiliário português.