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segunda-feira, 2 de agosto de 2021
Entrevistas
Mercado imobiliário terá pouca procura enquanto a questão económica não ficar mais definida

Mercado imobiliário terá pouca procura enquanto a questão económica não ficar mais definida

3 de junho de 2020

Paulo Trindade, presidente da ASAVAL - Associação Profissional das Sociedades de Avaliação, reconhece que ainda é cedo para avaliar o impacto desta crise nos preços no imobiliário, só o tempo dirá se irão baixar. O interesse dos grandes investidores estrangeiros poderá atenuar o efeito nefasto da pandemia no mercado imobiliário.

Muita polémica tem sido levantada quanto à expectativa da descida dos preços da habitação em Portugal devido à crise instalada com a pandemia do Covid-19. Qual a sua opinião relativamente as estas questões?

O reduzido número de transacções que se verifica actualmente ainda não permite confirmar qual o verdadeiro impacto da pandemia nos valores de mercado dos imóveis. Dependendo do tempo que que demorará o relançamento da economia – a tão falada questão da retoma em curva V, L ou U – a expectável queda de preços, poderá ser maior ou menor em função do tempo. Não obstante, parece manter-se o interesse dos grandes investidores estrangeiros, o que poderá atenuar o efeito nefasto da pandemia no nosso mercado imobiliário.

Como avalia o futuro do mercado imobiliário para este ano e o próximo?

Este ano é ainda de uma profunda incerteza – neste momento iniciámos o processo de desconfinamento, estando ainda em avaliação os efeitos que o mesmo terá na saúde pública. Por outro lado, os apoios que o Estado concedeu nos últimos três meses mascaram de alguma forma a real situação das empresas, sendo expectável que muitas venham a encerrar por incapacidade de recuperação face ao tempo decorrido desde o início da pandemia e das imposições sanitárias decorrentes do estado de emergência, com o respectivo aumento do desemprego. Parece certo que o mercado imobiliário terá pouca procura enquanto a questão económica não ficar mais definida, pois os potenciais compradores procurarão ter a certeza se o mercado vai corrigir em baixa ou não e até quando. No próximo ano e desde que não exista nova fase de confinamento, parece-nos poderem estar reunidas as condições para que o mercado imobiliário acompanhe a retoma económica que está prevista, ainda que o ritmo possa não ser idêntico, dada a baixa elasticidade do mercado imobiliário nacional.

Quais os segmentos que irão ser mais afectados?

Julgo que todos os segmentos serão afectados, provavelmente apenas com excepção das localizações prime. O sector escritórios será obviamente afectado pelo aumento do número de encerramentos de empresas ou, pelo menos, de downsizing das suas estruturas; o sector comercial de retalho, em especial o não alimentar, que foi profundamente afectado nestes últimos três meses e no qual muitas empresas nem sequer irão retomar actividade, aumentando a oferta de espaços disponíveis; o sector habitacional, que irá ser afectado pelo aumento do desemprego e degradação da economia, afectando sobretudo os produtos destinados a  segmentos médios. As medidas pós pandemia, que começam a indiciar a necessidade de um aumento de impostos, também não irão decerto criar o ambiente de confiança mais favorável para o investimento das famílias em habitação.

Um estudo da Knight Frank diz que Lisboa, é um dos poucos mercados principais do mundo em que os preços das casas ainda podem subir em 2020. Como avalia esta análise da consultora?

Como referi inicialmente, nesta fase os dados ainda são escassos, pelo que é prudente não se criarem cenários demasiado optimistas, perante tempos tão incertos como aqueles que vivemos actualmente.

Como serão equacionadas as avaliações imobiliárias nos próximos tempos?

Não é um momento particularmente fácil para a nossa profissão. É importante manter um critério de prudência, aumentando o trabalho do perito avaliador para recolher informação de mercado fidedigna e consentânea com a realidade actual. Este contexto parece-nos demonstrar mais uma vez a necessidade premente das autoridades nacionais, nomeadamente o INE, divulgarem dados concretos das transacções de imóveis, para que a informação de comparação de mercado que apoia as avaliações imobiliárias seja precisa e não se baseie apenas em asking prices, que neste contexto pode levar a erros consideráveis. Para evitar esses erros, cabe ao perito avaliador aprofundar a análise de mercado do segmento e local onde se insere o imóvel que está a avaliar, bem como do prémio de risco adequado.

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