
Cimeira do Alojamento Local: debate sobre os desafios do setor e da habitação até 2035
A primeira Cimeira Nacional do Alojamento Local reuniu mais de 200 participantes e 40 oradores, nos dias 7 e 8 de outubro, no Porto, para debater a relação entre turismo e habitação, os desafios da regulamentação e o futuro do setor até 2035.
Organizada pela Associação Alojamento Local Porto e Norte (ALPN), a iniciativa decorreu no Centro de Cinema Batalha e contou com representantes de entidades públicas, especialistas, académicos e operadores turísticos nacionais e europeus.
Um dos principais temas foi o impacto do alojamento local (AL) no mercado habitacional, num contexto de escassez de oferta e subida dos preços das casas.
Manuel Caldeira Cabral, economista e antigo ministro da Economia, contestou a associação direta entre o crescimento do alojamento local e a crise da habitação, defendendo que o principal problema reside na insuficiência de construção de novas casas.
Segundo o economista, a produção anual de habitação, que chegou a situar-se entre 85 mil e 120 mil unidades, caiu para cerca de 7 mil a 8 mil após a crise financeira. Apesar da recuperação para 24 mil a 30 mil habitações anuais, considera que a oferta continua insuficiente para responder à procura.
Entre as medidas propostas destacou o reforço do financiamento às empresas de construção, a formação e atração de trabalhadores, o apoio à habitação a custos controlados e uma maior flexibilidade dos Planos Diretores Municipais.
Também o presidente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), Benjamim Pereira, destacou o contributo do alojamento local para a recuperação de edifícios degradados e a revitalização dos centros urbanos.
Por sua vez, Álvaro Santos, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-Norte), salientou o papel do investimento privado ligado ao turismo na reabilitação urbana do Porto.
A cimeira abordou ainda a necessidade de regulamentação adaptada às diferentes realidades territoriais, com a participação de Matthew Baldwin, responsável pela Task Force para a Habitação da Comissão Europeia.
A qualificação dos serviços, a sustentabilidade e a utilização de inteligência artificial estiveram igualmente em debate. Catarina Paiva, administradora do Turismo de Portugal, defendeu o reforço da formação profissional e a valorização das competências humanas no setor.
Outro dos temas foi a descentralização da atividade turística, com António Jorge Costa, presidente do Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo (IPDT), a defender a distribuição dos fluxos turísticos por municípios periféricos e territórios do interior.
Livro Branco do Alojamento Local apresentado em versão preliminar
O encontro ficou também marcado pela apresentação pública da versão de trabalho do Livro Branco do Alojamento Local, promovido pela ALPN, cuja publicação definitiva está prevista para 2027.
O documento, coordenado pela associação com a participação de Manuel Caldeira Cabral e outros especialistas, reunirá estudos, dados e contributos sobre a atividade, procurando fundamentar propostas para o desenvolvimento do setor.
Segundo David Almeida, presidente da ALPN, o alojamento local integra realidades económicas distintas, desde pequenos proprietários que complementam os seus rendimentos até empresas de gestão profissionalizada.
A associação pretende utilizar as conclusões da cimeira para aprofundar o diálogo com entidades públicas e agentes económicos sobre a regulamentação, a sustentabilidade e o desenvolvimento territorial do alojamento local.

















