
Turismo - IPDT
Banco de Portugal alerta para limites do turismo em Lisboa e Algarve e defende diversificação
Portugal tem ainda margem para crescer no turismo, mas esse crescimento terá de passar cada vez mais pela diversificação dos destinos, pela qualidade da oferta e pela criação de maior valor acrescentado, defendeu o governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira.
Na VIII Cimeira do Turismo Português, promovida pela Confederação do Turismo de Portugal (CTP), em Lisboa, o responsável considerou que será difícil aumentar significativamente o número de turistas em destinos já muito procurados, como Lisboa e o Algarve, apontando, em contrapartida, para o potencial de outras regiões e de novos produtos turísticos.
Segundo Santos Pereira, o setor deverá apostar na “qualidade, na diversidade e na exigência”, mas para concretizar essa estratégia será necessário aumentar a produtividade e gerar mais valor.
Habitação é um dos desafios do setor
A dificuldade em encontrar e reter trabalhadores foi também identificada como um dos principais constrangimentos ao crescimento do turismo. Para o governador do Banco de Portugal, os elevados custos da habitação estão a dificultar a permanência de profissionais, portugueses e imigrantes, nas regiões onde existe maior procura turística.
Neste contexto, defendeu um reforço da construção de habitação pública e social, considerando que uma política de turismo terá de ser acompanhada por uma política de habitação capaz de aumentar a oferta e reduzir a pressão sobre os trabalhadores do setor.
“Só vamos atrair mais mão-de-obra se aliada a uma política de turismo tivermos uma política que aumenta a oferta habitacional e aumenta a oferta da habitação pública”, afirmou.
Os dados apresentados na cimeira mostram também uma diferença significativa entre os salários praticados no turismo e a média nacional. Enquanto o salário médio nacional se situa nos 1.686 euros mensais, o valor médio no setor do turismo é de 1.145 euros.
Santos Pereira salientou ainda que, embora o crescimento do emprego no setor esteja a abrandar em termos de volume, a evolução dos salários tem permanecido sustentada.
IA representa oportunidade, mas exige adaptação
Entre os desafios que poderão condicionar a evolução do turismo estão também os riscos geopolíticos, as alterações climáticas, a pressão turística e a inteligência artificial (IA).
No caso da IA, o governador considera que esta representa sobretudo uma oportunidade, embora possa transformar-se num risco para as empresas que não acompanhem a evolução tecnológica.
A tecnologia já está a alterar a forma como os turistas pesquisam destinos e planeiam as suas viagens. Por isso, Santos Pereira defendeu que as empresas devem preparar as suas plataformas digitais para responder às novas necessidades dos consumidores, disponibilizando informação adequada e uma oferta cada vez mais diversificada.
Citando um estudo da Booking realizado em 2025, referiu que 67% dos inquiridos já tinham utilizado IA relacionada com viagens, enquanto 89% afirmavam pretender utilizá-la no futuro. Cerca de 12% aceitavam mesmo que a tecnologia tomasse decisões de forma autónoma.
Para o governador, o impacto da IA no turismo e na economia poderá assumir uma dimensão significativa nos próximos cinco a dez anos.
Diversificar destinos para reduzir a pressão turística
Como resposta aos desafios que se colocam ao setor, Santos Pereira defendeu o desenvolvimento de produtos e serviços diferenciados e sustentáveis, a redução da sazonalidade, a diversificação territorial e uma maior eficiência dos transportes.
A estratégia passa, assim, por distribuir melhor a atividade turística pelo território, reduzindo a concentração da procura em destinos que já enfrentam sinais de pressão.
A diversificação poderá permitir não apenas captar novos visitantes, mas também prolongar a permanência dos turistas e aumentar o valor gerado por cada visitante.
Novo aeroporto é considerado infraestrutura essencial
O novo aeroporto de Lisboa foi outro dos temas abordados pelo governador do Banco de Portugal, que criticou os prazos atualmente previstos para a concretização da infraestrutura projetada para Alcochete.
“Como país, não é minimamente aceitável que estejamos décadas à espera de um aeroporto essencial”, afirmou Santos Pereira, defendendo uma redução dos prazos de construção do Novo Aeroporto de Lisboa (NAL).
O responsável comparou o calendário português com o processo de construção do aeroporto de Istambul, na Turquia, que, segundo referiu, foi concretizado em quatro anos.
Na sua perspetiva, qualquer atraso na construção do novo aeroporto poderá ter consequências relevantes para a economia portuguesa e para a capacidade de resposta do setor turístico.
Turismo ganhou peso na economia portuguesa
Na sua intervenção, Álvaro Santos Pereira destacou ainda a evolução do turismo português ao longo da última década e meia, salientando o crescimento do setor e o peso que conquistou na economia nacional, nomeadamente ao nível das exportações e da quota de mercado.
O próximo ciclo, contudo, deverá ser marcado por novos desafios. A capacidade de crescimento do turismo dependerá não apenas do número de visitantes, mas também da capacidade de Portugal para gerar mais valor, melhorar a produtividade, garantir trabalhadores, aumentar a oferta habitacional e diversificar os destinos.
Num contexto de pressão sobre alguns dos principais destinos turísticos, o desafio passa, assim, por encontrar um equilíbrio entre crescimento, sustentabilidade e capacidade de resposta das infraestruturas e das comunidades locais.
DI com LUSA















