
Arquiteto Assis Reis - Foto Márcia Reis
Casa da Arquitetura recebe espólio de Assis Reis com mais de 3.000 documentos
A Casa da Arquitetura – Centro Português de Arquitetura recebeu o acervo do arquiteto brasileiro Francisco de Assis Couto dos Reis, conhecido como Assis Reis (1926–2011), uma das figuras centrais da segunda geração da arquitetura moderna na Bahia. O conjunto documental, cujo pré-inventário contabiliza 3.079 itens, reúne materiais de diferentes fases da sua carreira e constitui um registo do seu percurso profissional e do processo de criação dos seus projetos.
O arquivo inclui 2.427 desenhos, duas maquetes, fotografias, vídeos, documentos escritos, publicações, discos de vinil e arquivos digitais, entre outros materiais. A documentação abrange projetos de habitação, equipamentos e intervenções urbanas, incluindo obras como o Centro Médico da Graça (1967), o Solar das Mangueiras (1976), a sede da Companhia Hidroelétrica do São Francisco (CHESF), de 1977, o Solar do Itaigara (1977) e a sede do Tribunal de Justiça, de 1998, bem como o respetivo anexo, concluído em 2002.
A integração do espólio na instituição portuguesa representa um passo na preservação da memória de um arquiteto cuja obra marcou a arquitetura e o urbanismo brasileiros.
Da casa da família para um arquivo de acesso público
O processo que conduziu à transferência começou em 2017, após a participação de Assis Reis na exposição Infinito Vão – 90 anos de arquitetura brasileira, organizada pela Casa da Arquitetura. Foi nesse contexto que a família estabeleceu contacto com a instituição e começou a ponderar uma solução para a conservação do arquivo.
Após a morte do arquiteto, em 2011, uma parte significativa da documentação permaneceu guardada num apartamento da família, em condições consideradas inadequadas para a sua preservação. A necessidade de evitar a degradação dos materiais e de assegurar o acesso futuro de investigadores e outros interessados tornou-se determinante para encontrar uma instituição de acolhimento.
Márcia Reis, arquiteta, investigadora e filha de Assis Reis, destaca a importância do trabalho desenvolvido pela Casa da Arquitetura na decisão da família.
"Eu tenho admiração pelo trabalho realizado pela Casa, pelo esforço em conservar a memória da arquitetura, e de fazer a maior exposição que se teve sobre a arquitetura brasileira fora do Brasil", afirma, recordando o impacto que a exposição teve na sua perceção do trabalho da instituição.
A família procurou também identificar instituições no Brasil com capacidade para acolher arquivos de arquitetos e assegurar a sua conservação e consulta. A solução encontrada em Portugal pretende garantir que os documentos deixam de estar confinados a um espaço privado e passam a integrar uma estrutura dedicada à preservação da arquitetura.
"Esse material não poderia mais estar se degradando, nem escondido dentro de um quarto. Ele precisa estar, como estará em breve, disponibilizado para todas as pessoas, todos os pesquisadores, todos os interessados em arquitetura", sublinha Márcia Reis.
Desenhos e maquetes revelam o processo criativo
Mais do que documentar obras concluídas, o acervo permite acompanhar a evolução dos projetos de Assis Reis, desde os primeiros estudos e esboços até aos projetos executivos e aos detalhes construtivos.
Entre os materiais inventariados encontram-se plantas, cortes, fachadas, levantamentos, croquis e estudos correspondentes a diferentes fases de desenvolvimento. Os conjuntos documentais relativos ao Centro Médico da Graça, de 1967, e à sede da CHESF, de 1977, ilustram essa diversidade.
O arquivo inclui ainda duas maquetes: uma relativa ao Centro de Identidade Cultural (CIC), de 1980, e outra associada ao concurso para a sede da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), de 2007.
A preservação destes materiais permite estudar não apenas os edifícios concretizados, mas também as hipóteses exploradas, as decisões de projeto e as propostas que não chegaram a ser construídas. Trata-se, por isso, de uma fonte relevante para a investigação sobre a arquitetura moderna brasileira e sobre os métodos de trabalho do arquiteto.
Uma carreira entre a arquitetura, o urbanismo e o ensino
Nascido em Aracaju, no estado brasileiro de Sergipe, a 24 de outubro de 1926, Assis Reis licenciou-se em Arquitetura, em 1957, pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia. A partir de 1968, integrou o corpo docente da mesma instituição.
O início da sua atividade profissional esteve ligado ao EPUCS – Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade de Salvador, onde trabalhou com o arquiteto e urbanista Diógenes Rebouças. Ao longo da carreira, desenvolveu projetos de arquitetura e urbanismo, colaborou com entidades públicas e participou em iniciativas de requalificação urbana.
Entre as obras mais representativas do seu percurso encontram-se a sede da CHESF, o Solar das Mangueiras, o Solar do Itaigara, a Casa Santa Izabel e o Centro Médico Albert Schweitzer, também conhecido como Centro Médico da Graça.
A sua atividade estendeu-se igualmente ao Rio de Janeiro, onde participou no programa Favela-Bairro, dedicado à intervenção e melhoria de áreas urbanas informais.
O reconhecimento profissional incluiu a atribuição do prémio Hors Concours, no final da década de 1960, pelo trabalho apresentado ao concurso nacional para o Pavilhão Brasileiro da Exposição de Osaka, no Japão. Em 2008, recebeu o Colar de Ouro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), em reconhecimento da sua trajetória.
Uma maquete que representa toda a cidade de Salvador
Entre os projetos de maior singularidade de Assis Reis destaca-se o Modelo Reduzido da Cidade do Salvador, desenvolvido na década de 1970 à escala 1:2.000 e concebido para abranger todo o território do município.
A maquete continua a ser atualizada pela Prefeitura Municipal de Salvador, através da Fundação Mário Leal Ferreira, e foi classificada como património cultural do município em 2020. O projeto evidencia a dimensão urbanística do trabalho do arquiteto e a sua preocupação com a leitura integrada do território.
A incorporação do arquivo na Casa da Arquitetura coincide com o centenário do nascimento de Assis Reis. As comemorações decorrem entre outubro de 2026 e outubro de 2027, com várias atividades promovidas pela família, assinalando a vida e o legado de uma figura relevante da arquitetura brasileira.
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