Não se compram projectos de arquitectura como se fosse um lápis

03 de Novembro de 2017

Com o dinamismo do mercado imobiliário, os arquitectos começam também a ganhar trabalho, contudo, isso não significa que a situação difícil desta profissão tenha beneficiado muito. Nuno Sampaio, arquitecto e director-executivo da Casa da Arquitectura, que vai inaugurar as novas instalações no dia 17 de Novembro, no edifício da “Real Vinícola”, em Matosinhos, garante mesmo que existe de facto mais trabalho mas em piores condições. “Regista-se mais produção mas os promotores acham que os serviços não merecem o que é pedido. Desvalorizou-se a produção arquitectónica. Isso regrediu”, explica o arquitecto.

Nuno Sampaio adianta ainda que o facto da legislação também ter mudado e onde os projetos arquitetónicos podem ser assinados por outros profissionais além dos arquitetos, é o princípio do fim, “e isto é o primeiro momento da degradação da profissão”. O responsável assegura que o futuro dos arquitetos continua a ser a experiência no estrangeiro.

Nuno Sampaio acrescenta também que a sociedade e o Estado dando o exemplo, vão entender “que não se pode comprar projectos de arquitectura como se compra um lápis ou papel higiénico, apenas pelo preço mais baixo”.

O arquitecto recorda ainda que se verificou uma abertura desmedida de cursos de arquitectura mas esse tempo acabou. “Existe uma consciência colectiva que enquanto profissão, existe um grande reconhecimento nacional e internacional mas diminuíram as condições para a produção qualificada de arquitectura. Temos hoje consciência do aumento de exigência e responsabilidade profissional mas não foi acompanhado pelas condições de trabalho e honorários. As pessoas pedem trabalhos mais rápidos e mais baratos. E isto não representa apenas a diminuição da obra pública, neste caso, tratava-se de o fim de um ciclo que era esperado e previsível”, explica o arquitecto.

 Ainda está tudo por fazer

Mas o director da Casa da Arquitectura revela que tanto os arquitectos mais jovens como os mais velhos sabem o que têm de trabalhar e ainda está tudo por fazer, “basta ver o parque habitacional que está por recuperar e corrigir muita coisa que foi feita nos anos 70, 80 e 90 do século passado. Durante muitos anos abandonou-se o centro e investiu-se nas periferias. Agora estamos a ver a recuperação dos centros urbanos e qualquer dia tem de se ir para a periferia recuperar”.

O responsável adianta ainda que a reabilitação tem ser regulada e que o turismo é bom mas não pode se investir apenas nesta atividade. “Temos de recuperar as periferias que foram construídas muito rápido, desqualificadas e a baixo custo, degradando-se também muito rapidamente. É necessário requalificar o território no seu todo e no campo também, aqui cometeram-se igualmente muitos erros. “Fizemos uma urbanização muito dispersa e essa dispersão provoca hoje dificuldades nas infraestruturas. Portugal tem de voltar a olhar e produzir de forma modernizada”, conclui.

O arquiteto revela ainda que existem duas realidades neste momento, Lisboa e o resto do país. Na capital verifica-se um dinamismo económico que ainda não é acompanhado pelo Porto e nas restantes cidades.

Relativamente à Casa da Arquitectura, Nuno Sampaio, salienta que uma das grandes inovações é o facto de ter no mesmo espaço, arquivos de arquitectura e zonas expositivas. “É um passo muito grande este que estamos a dar. Um arquivo é fundamental para esta disciplina e para os profissionais desta área. Existe uma lacuna neste tipo de oferta e que é necessário para os investigadores. Claro que para um projecto de reabilitação do espaço os cuidados a ter são também mais específicos para que se possa preservar os documentos. Mas era fundamental termos este arquivo que irá ocupar 1.000 m2”, explica Nuno Sampaio.

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