Uma inverdade conveniente

10 de Abril de 2018

“Não existem no mercado casas de luxo suficientes para suprir a procura”. Quem o diz? Todos! Do amigo bem relacionado e conhecedor do mercado, aos jornais, televisões e rádios, passando pelo consultor imobiliário conhecido, ou até mesmo a dona Alzira, porteira lá do prédio, que afiança que foi o senhor notário, que mora no sexto esquerdo, quem lhe deu a novidade.

E você, quantas vezes ouviu esta afirmação, em modo ‘verdade absoluta’? Já se questionou sobre a sua exatidão? Como é corrente dizer-se, ‘uma mentira contada mil vezes, torna-se numa verdade’. E, na minha opinião, é o que está a acontecer com este tema. Estamos assim perante uma inverdade conveniente.

Mas, comecemos pelo mais importante: o que define um imóvel como sendo de luxo? Será o fator preço, aquele que estará no top of mind de qualquer pessoa? Ou, se tem ou não piscina e ginásio? Errado. Dentro da subjetividade do tema, há uma caraterística com a qual todos concordamos para a definição de imóvel de luxo: a localização. É, sem sombra de dúvida, a principal. Depois, vem a vista, preferencialmente de rio ou mar. Seguem-se os aspetos relacionados com o conforto e qualidade dos materiais, arquitetura ou interesse histórico do imóvel. Identificamos também uma crescente procura por casas high-tech. Um novo patamar que pode entrar para a definição.

Respeitando escrupulosamente estes e outros critérios de qualidade ainda mais exigentes, entram na nossa empresa, em média, 30 novos imóveis de luxo por mês. Com exceção feita a imóveis singulares no Porto, Douro, Alentejo e Algarve, a esmagadora maioria é proveniente das zonas mais premium de Lisboa, linha de Cascais e Sintra.

Não sendo o único player no mercado de luxo, é fácil constatar que há uma discrepância óbvia entre a percepção da realidade, de que não há imóveis de luxo suficientes, e a verdade.

Essa distância é criada por todos os atores. Do consultor imobiliário à dona Alzira, passando pelos proprietários, beneficiando da amplificação mediática. Obviamente, cada um com responsabilidades (e objetivos!) distintos.

Espalhar a inverdade de que o imobiliário de luxo ‘não chega para as encomendas’ tem uma repercussão imediata: torna-a verdade. Tal, leva à criação de uma bola de neve. Começa a sobrevalorização, acima do que o mercado está apto a absorver, com os proprietários a perdem a noção do que é realmente um imóvel de luxo, suportados por mediadores imobiliários sem qualificações e conhecimento, resultado de se estar num mercado não regulamentado. A prazo, leva à gravosa falta de confiança generalizada dos proprietários na medição imobiliária.

Concluímos, pela nossa experiência de 17 anos como real estate boutique, e da partilha de informação com outros players deste segmento, que, ao contrário da percepção generalizada, o mercado do imobiliário de luxo em Portugal está equilibrado e com grande maturidade. Ainda assim, sempre sujeito e epifenómenos como a percepção dominante de que não há oferta que satisfaça a procura. O mal maior, como vimos, são as implicações reais que traz ao mercado.

Como o laureado com o Óscar e Prémio Nobel, Al Gore, não podemos deixar de trazer  à luz do dia ‘uma verdade inconveniente’: existe imobiliário de luxo suficiente e com as caraterísticas exigidas pela procura.

Filipe Lourenço

CEO da Private Luxury Real Estate

*Texto escrito com o novo acordo ortográfico