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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
Opinião

Turismo de ‘olhos’ postos no imobiliário

22 de novembro de 2019

No 45º congresso da APAVT – Associação Portuguesa de Agências de Viagens e Turismo, que decorreu na semana passada na cidade do Funchal, na ilha da Madeira, a principal preocupação manifestada durante o evento foi o futuro do turismo, sobretudo quando se fala num fim de ciclo.

As várias intervenções foram praticamente consensuais sobre o facto de não existir o receio de uma regressão no sector. O que se verifica é uma consolidação do mercado, ou seja, o crescimento nos últimos anos tem sido acima da média, daí que os números actuais e os futuros, mostrem algum abrandamento no crescimento, não uma queda.

No entanto, a actualidade e os vários intervenientes nos painéis e o próprio tema do congresso ‘Turismo: Opções Estratégicas’, exigem uma estratégia para abordar e trabalhar o sector nos próximos anos.

O turismo é uma sector muito abrangente e faltou uma abordagem importante para delinear o futuro da actividade turística em Portugal. Como sabemos, Portugal tem estado na ‘moda’, entrou definitavamente na lista de um dos destinos emergentes. Ajudado inicialmente pela instabilidade e insegurança de alguns países que dominavam os destinos turísticos internacionais, e também pela estratégia institucional do Governo português de promoção e divulgação do nosso país, no entanto, o factor principal para esta redescoberta de Portugal a nível internacional, foi de facto, o investimento imobiliário.

A entrada em força de investidores estrangeiros colocaram o nosso país no topo dos destinos mais atractivos da Europa. O programa ARI - Autorização de Residência para Atividade de Investimento, conhecido como Vistos Gold, a corrida ao passaporte dourado, trazendo com eles benefícios fiscais e abertura à circulação no espaço Schengen, desencadeou a corrida ao nosso país.

Depressa a reabilitação em edifícios e zonas históricas para vender aos estrangeiros disparou, o Alojamento Local tomou uma proporção até aqui quase inexistente. Lisboa começou a ficar mais bonita e lá fora, os estrangeiros começaram a olhar para Portugal. Investir no nosso país é atractivo, seguro, tem benefícios fiscais e surpreendentemente descobriram que é um país maravilhoso, com um clima excepcional, uma gastronomia fantástica, património invejável, seguro e além de outros atributos, é barato.

De um dia para o outro, ficámos nos primeiros lugares em tudo o que é ranking internacional de investimento imobiliário e no turismo. A comunicação social internacional rendeu-se aos encantos portugueses e até as grandes empresas se instalam aqui. Promotores e fundos, gigantes do imobiliário, querem investir no nosso país.

O maior beneficiário desta exposição internacional foi de facto o turismo. Passámos de um país periférico, (muitas vezes até confundido como território espanhol) como um destino a visitar e viver. A vinda de estrelas ‘planetárias’, como a cantora Madona para morar em Lisboa,  acabou mesmo por colocar Portugal na rota dos destinos turísticos a descobrir e como um refúgio ideal para viver.

O turismo, não pode por isso delinear estratégias sem dialogar e observar de perto a evolução do mercado imobiliário. A polémica que se instalou nos centros das cidades, sobretudo em Lisboa e depois no Porto, sobre a especulação imobiliária, a expulsão da população local, a proliferação dos AL, a subida em flecha dos preços, são consequências deste crescimento e estão a chegar também à imprensa internacional.  Vários colegas da imprensa estrangeira confidenciaram que os editores já não querem as notícias do crescimento e da cidade maravilhosa que é Lisboa, os temas que lhes pedem são precisamente as consequências do impacto do crescimento imobiliário e turístico na cidade, a gentrificação. É importante perceber que algo pode estar a mudar.  Não é por acaso que para 2019, Lisboa estava no topo do do ranking europeu de destino de investimento imobiliário no Tendências Emergentes no Mercado Imobiliário da ULI / PwC ® e para 2020 ficou no 10º lugar.

Não significa que o destino de Portugal esteja em risco, porque de facto, temos do melhor que há e quem nos visita, comprova-o. Até para o imobiliário as perspectivas são optimistas para os próximos anos. Mas independentemente das qualidades do país, sabemos que tudo tem os seus ciclos e se antes demoravam quase 50 anos para alguma coisa mudar, agora são cinco. O que hoje está na ‘moda’, amanhã está ultrapassado.

O turismo tem de estar sempre atento ao desempenho do mercado imobiliário, porque se ele foi o ‘rastilho’, também o pode arrastar, sobretudo quando surgirem outros destinos atractivos para o investimento imobiliário e se verificar as alterações à legislação dos Vistos Gold.

É importante, por isso, o turismo caminhar seguro e delinear estratégias mas sem nunca deixar de acompanhar e olhar de perto o imobiliário, porque andam de mãos dadas nesta caminhada. O turismo tem de ter sempre os olhos ‘postos’ no desempenho do mercado imobiliário.

Fernanda Pedro

Directora do Diário Imobiliário

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