Notas sobre o ‘mercado da arquitectura’

20 de Março de 2017

A relação da sociedade portuguesa com a arquitectura que se produz em Portugal é semelhante à relação do mundo actual com qualquer coisa que implique mais do que um simples olhar:

- Vê-se muito em quantidade; Mas muito pouco com alguma profundidade.

Com a divulgação em massa de imagens através da internet, a arquitectura tem vindo a tornar-se uma indústria de produção de formas, tornando irrelevante qualquer conteúdo, acerto com a cultura local, ou até a razoabilidade e funcionalidade dos espaços de um projecto, que as formas arquitectónicas encerram.

A produção de formas e de imagens produz marcas, ambicionadas pelos consumidores, como forma de distinção. Muitos arquitectos tornaram-se marcas neste mercado voraz, sendo os seus projectos ambicionados como qualquer outro produto de consumo.

O valor do trabalho dos arquitectos está no mesmo plano do mercado de consumo: As marcas mais ambicionadas definem o seu próprio preço. As restantes batalham pela quantidade ao valor mais baixo.

Os fotógrafos tornaram-se os grandes promotores da arquitectura. Deve reconhecer-se, com justiça, que a fotografia de arquitectura adquiriu uma qualidade excepcional, que suplanta não raras vezes a qualidade da obra fotografada.

No meio da confusão produzida pelos milhões de imagens de formas e edifícios, um critério para perceber o que ainda distingue a boa arquitectura é a capacidade de um edifício ser melhor, quando visitado, que as extraordinárias fotografias que o mostram. Ser capaz de sobreviver à sobreexposição das imagens. E surpreender ainda depois disso.

Mas o mundo tem mecanismos de equilíbrio: Escavando no meio da confusão descobrem-se novas obras e jovens arquitectos de inegável valor.

Pelo que é bem possível que a arquitectura sobreviva a esta vertigem.

Talvez a forma possa continuar a interessar como resultado do nosso trabalho, mas não como o seu principal objectivo.

 

Arq. João Maria Ventura Trindade

Ventura Trindade - Arquitectos