CONSTRUÍMOS
NOTÍCIA
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021
Opinião
Construção e Imobiliário: face à pandemia, qual é o nosso futuro?

Construção e Imobiliário: face à pandemia, qual é o nosso futuro?

13 de janeiro de 2021

Após mais de uma década sob uma acentuada crise originada pelo clima político e económico que se fazia sentir, o setor da construção e do imobiliário em Portugal iniciou a sua recuperação em 2017. Criadas as melhores expetativas para um crescimento sustentado do setor nos anos seguintes, chegou em 2020 a pandemia, que provocou quebras significativas na atividade económica, principalmente no segundo trimestre, em que vigorou o primeiro estado de emergência e onde foi impedida a realização de muitos negócios.

Não obstante, face a 2019, ter havido uma redução do número de transações e de licenças emitidas para construção nova e reabilitação de edifícios residenciais (e não residenciais), assim como uma desaceleração dos preços das casas, permaneceu inalterada a tendência global de crescimento dos preços dos imóveis e do montante de crédito concedido a particulares para aquisição de habitação, destacando-se ainda 2020 como um dos anos mais favoráveis de sempre em termos de volume de transações. No segmento das obras públicas, o total de concursos promovidos e o volume de contratos celebrados registaram uma variação homóloga positiva. Adicionalmente, em 2020 também o consumo de cimento no mercado nacional aumentou em termos homólogos.   

Com os principais indicadores setoriais a mostrarem-se mais positivos do que a generalidade das estimativas, este setor tem registado uma evolução favorável, aumentando o seu peso no PIB nacional, tendo inclusive sido destacado pelo Banco de Portugal pela sua resiliência e importância para a economia. Todavia, o crescimento da construção e do imobiliário depende também do progresso dos mercados, agora condicionado à evolução da pandemia e da rapidez da vacinação em larga escala. Como tal, inobstante a previsão de retoma progressiva da atividade até final de 2022, onde recuperaremos os níveis pré-pandemia, a única certeza é só uma, e que afeta diretamente a confiança dos investidores: a incerteza.

As ações de mitigação a tomar nos próximos anos são sobretudo de caráter político-económico, começando com investimento público como meio para estimular a economia e, subsequentemente, incentivar o desenvolvimento do setor privado.

Neste sentido, tem de haver planeamento e execução, preferencialmente, ao abrigo de pactos de regime, para garantir a sustentabilidade de iniciativas como o Programa Nacional de Investimentos (PNI) 2030. Este programa representa uma oportunidade única para a engenharia e construção, nomeadamente em infraestruturas e transportes, com especial destaque para a ferrovia. Requer contudo empresas com capacidade produtiva e recursos humanos qualificados para conseguir responder aos desafios de grandes projetos, o que, sem um esforço conjunto das organizações nacionais para ganhar escala e ultrapassar problemas estruturais e conjunturais da indústria, facilmente dará lugar a empresas estrangeiras.

Atendendo a que mais de 99% desta indústria é composta por PMEs com uma elevada alavancagem financeira e que frequentemente enfrentam problemas de liquidez, por variados motivos como sobrecustos ou atrasos nos pagamentos a receber, nunca é demais frisar que as empresas vivem de contratos efetiváveis e efetivados e, acima de tudo, de fluxos de caixa para fazer face às suas obrigações perante terceiros (colaboradores, estado e credores) e acionistas. A gestão da tesouraria tem sido um desafio acentuado com a pandemia, tanto para empresas como particulares, pelo que deve ser devidamente acautelada na fase de recuperação. As entidades adjudicantes terão também de adquirir mais capacidades e competências para especificar e monitorizar critérios além do preço, valorizando outros aspetos como a implementação de novas metodologias e tecnologias para incrementar a eficiência no desenvolvimento dos projetos e obras.

O investimento privado, em especial para atrair e reter investidores estrangeiros, deve ser estimulado também com mais incentivos fiscais, principalmente agora com o fim decretado para os vistos Gold no litoral e áreas metropolitanas, e maior disponibilidade de crédito para empresas e particulares, considerando o financiamento de instituições financeiras internacionais complementarmente às nacionais. O processo de licenciamento de projetos imobiliários, que foi muito afetado com a pandemia, vai requerer menos burocracia e mais capacidade administrativa dos municípios.

Salienta-se também a óbvia mas nem sempre apreendida importância de realizar investimentos produtivos, em detrimento de outros meramente convenientes, para fazer face ao prevísivel aumento significativo do endividamento público e privado e do risco de crédito na próxima década, que colocarão desafios acrescidos à economia portuguesa, cuja dívida já tem vindo a crescer mais rapidamente do que o PIB, o que tende a refletir-se em mais impostos no futuro.

Finalmente, a visão sobre o futuro da construção e do imobiliário é otimista, prevendo-se uma recuperação em “U”, sobretudo através de obras públicas e de projetos de edificios residenciais cujo desenvolvimento será estimulado com a disponibilização de fundos europeus e com medidas de apoio ás empresas. Porém, o sucesso desta recuperação está diretamente dependente de um planeamento rigoroso e da necessária estabilidade política, pelo que, perante o potencial impacto de novas medidas restritivas, torna-se fundamental decidir, de forma competente, coesa e consciente, em clima de incerteza.

Bruno de Carvalho Matos

Engenheiro Civil Sénior MRICS PMP MSc e MBA pela Católica | Nova

*Texto escrito com novo Acordo Ortográfico

PUB
TURISMO
Mais de 60 organizações de viagens e turismo pedem à UE plano para Verão
25 de fevereiro de 2021
ARRENDAMENTO
Proprietários receiam que incumprimento de rendas vá aumentar este ano
17 de fevereiro de 2021
PUB
PUB
INTERNACIONAL
FIFA world Cup Qatar 2022: construção de 7 estádios já levou à morte de mais de 6.500 trabalhadores migrantes
24 de fevereiro de 2021
PUB