Uma definição para o centro histórico de Ponta Delgada

17 de Abril de 2018

O arquitecto Soares de Sousa, autor de um livro sobre a arquitectura urbana de Ponta Delgada, defende que é imperioso definir o que deve ou não ser intervencionado no centro histórico da cidade açoriana.

António Soares de Sousa, que nasceu em 13 de junho de 1932 e estudou na Escola Superior de Belas Artes, em Lisboa, considera que há que estabelecer a intervenção a adoptar nos edifícios mais notáveis da cidade, bem como naqueles que apesar de não terem esta classificação são característicos de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel.

O autor da obra agora editada “A arquitectura urbana em Ponta Delgada – finais do século XIX, começos do século XX”, é defensor que há que “abrir uma porta” neste capítulo, com base na realização de estudos “mais aprofundados”, alertando que há intervenções que não devem ter lugar e outras que podem ir até à demolição.

O arquiteto-pintor, que iniciou a sua carreira na Câmara Municipal de Lisboa, em 1964, admite, contudo, dificuldades para colocar em prática uma iniciativa como esta, por falta de orçamento ou devido ao factor tempo que o projecto requer, mas fica o desafio para se avançar neste capítulo.

Para o arquitecto, que foi director de serviços na direcção de Urbanismo e Ambiente da Secretaria Regional do Equipamento Social, a Câmara Municipal de Ponta Delgada deve criar um grupo de trabalho para se avançar na preservação do centro histórico com recurso aos profissionais locais, estando em causa questões de segurança, resistência e salubridade, entre outros factores, que devem ser realizadas “com detalhe”.

Soares de Sousa, que começou ainda na Câmara Municipal de Lisboa a dedicar-se aos centros históricos, participando em iniciativas em cidades como Roma, aponta que em burgos como o Porto, em que se já tentou desenvolver um projecto desta natureza, acabou-se por sucumbir às pressões políticas e económicas.

Tal como aconteceu na Turquia, Grécia ou em Bolonha, Itália, onde foi desenvolvido um “trabalho meticuloso” nos centros históricos, o processo sofreu um impasse alguns anos depois do seu início e após pressões políticas face aos volumes financeiros envolvidos.

 

“Falta de planeamento”

Nestes processos de valorização dos centros históricos, o arquitecto defende que não se podem retirar os habitantes dos centros das cidades, como garantia de sucesso.

Para Soares de Sousa não foi apenas a dinâmica económica que os Açores sofrerem na última década que impôs alterações urbanísticas, tendo a “falta de planeamento” sido uma das principais razões.

“Nunca houve uma reflexão sobre as questões do urbanismo e consequente planeamento. Ponta Delgada cresceu mesmo antes da actual dinâmica, em muitos aspectos, mal, o que agora tem reflexos, acrescendo a dinâmica do turismo, que pode ainda agravar muito mais a questão”, declara.

Soares de Sousa vê esta questão com “grande preocupação”, sem deixar de lançar uma nota critica ao poder político local e regional no capítulo do urbanismo.

A par da sua actividade profissional, com projectos e realizações em urbanismo e arquitectura, Soares de Sousa tem desenvolvido vários trabalhos na pintura através do recurso ao desenho e aguarela, tendo participado em várias exposições nos Açores, Madeira, continente, Estados Unidos e Canadá.

Lusa/DI