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Triagens

5 de julho de 2021

No meu último artigo, falei-vos aqui das várias opções possíveis que podem existir para quem quer experimentar a vertente imobiliária: há quem goste dos negócios mais pequenos, há quem prefira apostar nos maiores, há quem goste de arriscar e há também quem prefira estar no conforto de ter uma agência por trás, que suporta o consultor na sua actividade e nas burocracias inerentes.

Considero, aliás, que, para o bem e para o mal, a força da diversidade é também a sua maior fraqueza, principalmente para as agências que não fazem qualquer selecção relativamente aos consultores que escolhem para trabalhar com eles. O verbo escolher foi aqui talvez um exagero de linguagem porque, pelo que me apercebo, a maioria das agências não tem qualquer critério na escolha de quem os procura. Não há, peço desculpa aos mais sensíveis que me estão a ler, qualquer triagem na escolha dos consultores que vão trabalhar para uma agência. E, na maior parte dos casos, a política de recursos humanos é… vou ser simpático… risível.

Todos nós fomos já a entrevistas para agências. Umas porque as procurámos e outras porque nos procuraram a nós. E até me vou dar ao luxo de não falar da minha experiência pessoal, para não me acusarem de mau feitio ou dizerem que tenho uma malapata contra as agências, os recrutadores ou o que seja (que, quem me conhece melhor sabe que não tenho. De todo). Os relatos que me chegam de colegas que são entrevistados roça a pobreza franciscana. Desde recrutadores que se dão ao luxo de chegar atrasados às entrevistas que vão fazer, a perguntas que não tem qualquer sentido e que servem apenas para dar a sensação de que se teve algum tempo com o potencial candidato, as opções são muitas e variadas, dependendo da imaginação e da criatividade de quem tem a responsabilidade de “contratar”.

O facto é que, na maior parte dos casos, este recrutamento é feito, o candidato é aceite e a formação marcada. Quando se inicia a formação, há uns que ficam pelo caminho, é certo. Mas, na maior parte dos casos, por vontade deles e não da agência.

Depois de feita a formação – honra seja feita, há agências que apostam à séria nesta parte e, mesmo que não façam a triagem inicial, quando têm o candidato à frente esforçam-se, genuinamente, para que aquele diamante em bruto se transforme num potencial diamante (e não num assegurado bruto) – os novos recrutas são lançados às feras.

E se há agências que os acompanham nos primeiros tempos, outras há que fazem a política do deixar andar, na secreta esperança de que o novato até consiga angariar imóveis e, com sorte (porque quando é assim, é disso que se trata) até consiga vender alguma coisita e trazer receitas para a agência.

Reconheço que o imobiliário é, em muitos casos, (talvez demasiados) a tábua de salvação para muitas pessoas que profissionalmente chegaram ao fim da linha. Para os que, infelizmente, vendo-se confrontados com a recusa das empresas nos sectores onde sempre trabalharam em lhes dar a mão, – porque são velhos, porque custam uma fortuna, porque não servem ou tantos outros motivos que as empresas arranjam para contratar mais por menos – o imobiliário é a resposta.

Também por isso, e por respeito a quem aqui vem parar e até quer fazer um bom trabalho, seria bom que o sector respondesse em conformidade e começasse a fazer uma triagem séria em relação a quem aqui anda e relativamente a quem aqui quer andar. Acredito que essa triagem daria com certeza frutos para todos. Para os que, desaguando aqui por acaso ou por vocação, aprenderam a gostar do imobiliário. E para todos os outros que já cá estão e que, sendo sérios, honestos e competentes, não se reveem nas críticas tão useiras e vezeiras que os acusam. Muitas vezes, infelizmente com razão.

Francisco Mota Ferreira

Consultor imobiliário