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domingo, 13 de dezembro de 2020
Opinião
Ensaio sobre a cegueira

Ensaio sobre a cegueira

7 de dezembro de 2020

Quem me acompanha por aqui sabe que eu não tenho qualquer pejo em escrever sobre o que quer que seja, desde que diga respeito ao imobiliário. Acho, sinceramente, que há imenso trabalho a fazer, um rol de coisas para mudar e, modestamente, quero acreditar que os meus artigos semanais podem ajudar a que, aos poucos, algo vá entrando e, quem tem responsabilidades no sector, possa promover ou provocar a mudança que todos reconhecemos ser urgente.

Ainda sobre este ponto, confesso-vos que tenho, aliás, a secreta esperança que, um dia, toda a actividade relacionada com o imobiliário possa ser reconhecida e respeitada, sem que os aldrabões e os agiotas que andam por aí possam mandar bitaites e dominar o mercado da forma como o fazem.

Infelizmente, também sei que a verdade se paga caro e o mais natural será eu ver, progressivamente, as portas a fecharem-se-me porque é muito difícil ser sério num sector que vive, gosta de viver e habituou-se a viver numa zona cinzenta em que a legalidade tem dias e a honestidade é o parente pobre e cada vez mais afastado. E, quem me lê, sabe que eu não poupo ninguém que está directa ou indirectamente ligado a este sector, desde que, naturalmente, tenha algo a apontar.

O meu ponto que queria partilhar convosco prende-se com a cegueira que as agências têm em relação aos seus profissionais ou a completa ausência de uma política de Recursos Humanos que possa potenciar os profissionais que têm a trabalhar com eles.

Infelizmente, para a maioria das agências, interessa muito pouco o que as pessoas que têm à frente fizeram até chegar ali. Se são miúdos novos, óptimo, podem ser (mal) formatados e começarem desde cedo com a conversa de banha da cobra que algumas adoptam como discurso oficial -  fico sempre na dúvida se quem o faz e ensina os novos a fazê-lo, fá-lo por manifesta incapacidade de evoluir e de perceber o mercado ou se fazem-no porque é nisso que genuinamente acreditam.

O pior, para mim, é quando resolvem ignorar olimpicamente o passado profissional do consultor que têm à frente e vão buscar fora o que poderiam ter entre portas. Ou, mais grave, quando nem sequer se apercebem do potencial que têm à frente deles.

Acreditem que sei do que falo. Tenho todo um passado profissional ligado ao marketing e à comunicação. Fui jornalista, trabalhei em comunicação e marketing, no sector público e no sector privado, com clientes nacionais e internacionais, e lancei a minha própria marca, com a qual trabalhei vários projectos ligados a todas estas áreas e aos eventos. Foi, aliás, graças a esta minha vertente empreendedora que conheci várias empresas do imobiliário (para quem desenvolvi diversas acções de marketing e comunicação – incluindo comunicação interna) e que me levaram onde hoje me encontro. Ou seja, o percurso que me levou até aqui foi tudo menos, digamos assim, tradicional.

Não me interpretem mal e percebam que adoro o que faço, nomeadamente o que diz respeito à vertente comercial dos grandes negócios, onde as parcerias entre profissionais sérios são, felizmente, uma constante. Mas houve alturas em que a coisa não era bem assim.

Partilho aqui convosco que fui abordado para, fazendo uso das minhas competências profissionais passadas, usar os meus skills de marketing e comunicação ao serviço de empresas e consultores. O problema, como em tudo o resto, é que as pessoas parece que se esquecem do ditado “if you pay peanuts you get monkeys”. E as várias propostas que recebi, que me aliciavam para a possibilidade de trocar a minha vertente comercial pela vertente profissional de marketing e comunicação nem sequer poderiam ser levadas a sério. E não vos escondo que gostaria muito que fossem e que me permitissem fazer a ligação entre o Imobiliário, o Marketing e a Comunicação.

Por outro lado, pelas conversas que tive com colegas, que noutras vidas foram arquitectos, advogados ou outros, a coisa não difere assim muito, passado pela esmola ou a mera indiferença. Ou seja, um desprezo total em relação ao que estas pessoas como profissionais qualificados de outras áreas podem trazer de mais-valia às empresas onde se encontram.

No que à minha área de origem diz respeito, acho que a grande ironia nisto tudo é a de que acredito que uma boa estratégia de marketing e comunicação é sempre algo que faz falta às empresas do imobiliário e, sejamos concretos, aos consultores: alguém que perceba do que está a falar e, já agora, que entenda o sector imobiliário e as necessidades das empresas e dos profissionais que nelas trabalham. E que, ao promovê-los, possa gerar notoriedade, leads e negócio. Infelizmente, as empresas optam por outros caminhos. O que, acima de tudo mostra uma enorme cegueira.

Francisco Mota Ferreira

Consultor imobiliário

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