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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021
Entrevistas
Vivemos sujeitos a um regime de esclavagismo fiscal que é a escravatura contemporânea

Vivemos sujeitos a um regime de esclavagismo fiscal que é a escravatura contemporânea

14 de setembro de 2020

Sérgio Ferreira, CEO da Coporgest, não poupa nas críticas aos serviços de urbanismo da Câmara de Lisboa, acusando-os de ineficácia. Também acusa o Estado de contribuir para destruir valor à economia.

O promotor imobiliário, que tem no portefólio mais de duas dezenas de projectos imobiliários, é uma das vozes menos optimistas quanto ao futuro imobiliário, no entanto, lembra que a indústria do imobiliário inclui muitos segmentos e subsegmentos, e cada um terá de procurar a melhor forma de se ajustar a uma crise que será dura, longa e transversal.

Num ano atípico o que podemos esperar do mercado imobiliário na Rentrée?

No mercado de Lisboa, que é aquele que melhor conheço, diria que a tendência é de baixa de preços do retalho, das unidades residenciais e dos escritórios.

O retalho vai libertar centenas de lojas, porque há muitas microempresas que já fecharam ou vão fechar nos próximos meses. Logo, o valor das rendas e das yields terão tendência para baixar, com excepção das melhores localizações.

Nos escritórios já ocorre libertação de espaços, não apenas porque há empresas a fechar, mas também porque o teletrabalho está a ajudar a libertar metros quadrados de escritórios e reduzir custos às empresas.

No negócio residencial, continuamos a sentir interesse de clientes estrangeiros, mas com claro abrandamento no ritmo de visitas.

Na hotelaria, imagino que muitas unidades de alojamento local se encaminharão para a venda e que alguns dos hotéis com pior localização se tentarão converter noutro tipo de negócio.

Quais os desafios que o sector tem pela frente?

Cada operador terá de encontrar o seu caminho. A indústria do imobiliário inclui muitas segmentos e subsegmentos, e cada um terá de procurar a melhor forma de se ajustar a uma crise que será dura, longa e transversal.

No nosso caso, o momento é de observar a realidade, que muda todos os dias com muita rapidez.

Tenho insistido que o mau funcionamento crónico dos serviços de urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa, que é um exemplo icónico de ineficácia que se agravou nos últimos meses, é um factor que seria fácil corrigir e que ajudaria a aliviar a crise do sector.

Aquilo é demasiado mau para ser verdade. Se despachassem todos os processos em 90 dias – que é tempo mais que suficiente - e se os critérios fossem transparentes, o sector melhoraria muito. Toda a gente acha que seria difícil ficar pior, mas é o que está a acontecer. É uma autêntica pouca vergonha, mas os promotores continuam a arrastar-se ao beija-mão. É uma tristeza.

Quais as previsões para o mercado até ao final do ano?

Costumo dizer que não tenho poderes de adivinhação e por isso nunca me atrevo a armar em profeta.

Sabemos todos que os períodos de incerteza são inimigos do consumo e do investimento.

A minha sensibilidade diz-me que os próximos meses serão de grande aumento do desemprego e de agravamento do estado da economia, em especial logo que terminem os períodos das moratórias.

Por outro lado, se prolongarem muito as moratórias, os Bancos, que em 2008 foram a origem da crise, serão agora vítimas desta nova crise.

Acresce que Portugal chegou a esta situação com o cocktail a que já estamos habituados: vivemos sujeitos a um regime de esclavagismo fiscal que é a escravatura contemporânea. Dizem que somos livres, mas é mentira – trabalhamos incessantemente para alimentar os Estados gordíssimos de que os políticos e os seus amigos se alimentam.

Em troca, os nossos governantes têm para deixar às gerações vindouras um Estado muito endividado e que funciona mal, uma economia que cresce a passo de caracol, um país em que o Estado contribui todos os dias para destruir valor à economia.

O Turismo e o Imobiliário disfarçaram esta desgraça durante um par de anos, mas esse jackpot interrompeu-se e os nossos governantes, que só sabem fazer navegação à vista, não têm capacidade para nos darem soluções e caminhos eficazes para o nosso futuro. Estão à nora, mas sempre a cuidar da imagem pública, da carreira política e da vidinha deles. É o que temos.

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