João Morgado, fotógrafo-arquitecto

10 de Fevereiro de 2016

Nascido em 1985, este jovem fotógrafo vem realizando uma carreira brilhante. Nos últimos quatro anos tem trabalhado regularmente com escritórios de arquitectura em Portugal, Espanha, Holanda e Itália. Considerado pela revista TopTeny NY “como um dos 10 melhores fotógrafos de arquitectura do mundo”, foi vencedor do Prémio ARCAID Images Fotografia de Arquitectura 2014 na categoria 'Sense of Place'.

João Morgado fala e revela-se aos leitores do “Diário Imobiliário”.

 

1.    Como chegou à fotografia… e, em particular, à fotografia de arquitectura?

Lembro-me que comprei a minha primeira máquina com os honorários de uma loja que eu projetei. Tinha 20 anos. Desde então, nunca mais deixei de fotografar. Sendo que a experiência que tive em Maastricht (Holanda), no ateliê de Wiel Arets - em que muitas vezes saí para a rua para fotografar as obras deste arquitecto - foi a confirmação de que era isto que queria fazer para toda a vida.

 

2.    Estudou arquitectura, e isso tê-lo-á influenciado decisivamente. Mas o que o levou a optar pela fotografia como profissão e não pela arquitectura..?

A oportunidade de não ficar circunscrito a uma única linguagem de um ateliê. Através da fotografia posso na mesma fazer parte de cada um dos projectos, com a mais-valia de dar a conhecer trabalhos de autores tão distintos como Siza Vieira, Miguel Correia, Tiago do Vale, entre muitos outros. Além de que, tendo a fotografia de arquitectura de ser realizada preferencialmente em dias de bom tempo, tenho o privilégio de poder estar em contacto com a natureza, em vez de estar fechado num gabinete.

 

3.    É ainda muito jovem e já tem bastantes anos como profissional consagrado. Foi difícil principiar? Ou, à época, a “concorrência” era pouca…?

Não dei por mim a contar os anos que já passaram. Da mesma forma que não sinto que foi difícil iniciar a minha carreira. Acho que quando se persegue um sonho, lá diz o ditado: "o caminho faz-se caminhando". Daí que nunca me tenha preocupado com a possível concorrência. Ela existe, mas também é salutar. Só assim nos superamos todos os dias.

 

4.    Como vê a evolução da fotografia de Arquitectura desde que se iniciou até aos nossos dias?

 Cada vez mais podemos usufruir de meios e técnicas que, consequentemente, nos trazem mais qualidade ao trabalho. Ficaram para trás os dias em que qualquer um podia tirar umas fotos 'bonitas' a uma casa. A linguagem passou a ser mais técnica e isso está impresso em cada pormenor que, por vezes, passa despercebido ao olhar comum. É isso que distingue as diferentes linguagens de quem fotografa.

 

5.    Portugal é pequeno, o mercado editorial é exíguo, e ainda mais restrito ao nível das publicações vocacionadas para a Arquitectura, a Imagem e o Design …Como se singra quando não há meios para publicar? A internacionalização torna-se inevitável?

Não diria inevitável, porque há sempre meios para publicar... mesmo no nosso país! Mas sempre que penso em publicar, faço-o à escala global. O que constato é que, muitas vezes, só depois de um projecto alcançar sucesso lá fora é que passa a ter os holofotes nacionais dirigidos para si. 

 

6.    Muito do seu trabalhado é já realizado para clientes estrangeiros? Conte-nos como tem sido essa experiência?

Tem sido uma experiência enriquecedora e uma aprendizagem. Não só porque se tem de estudar muito bem o cliente, o que pretende comunicar... perceber o quanto a dinâmica de uma pequena confeitaria, num emaranhado de ruas, pode trazer ao Kuwait é bem diferente do estilo de vida que se tem de passar quando estamos perante um design hotel, de cinco estrelas, em plena baía de Rovinj na Croácia. Pelo seu contraste, ambos foram fascinantes de serem fotografados. Já para não falar de Itália, onde a nova arquitectura exprime-se num total respeito com a identidade clássica.

 

7.    O seu trabalho é muito condicionado pelos seus clientes ou normalmente tem total liberdade?

Tenho um especial cuidado de, sempre que possível, partir para um novo trabalho só depois de ouvir as ideias/conceitos dos seus autores. É como se nos estivessem a apresentar um novo membro da família, em que não nos basta ficar a saber apenas o nome. Temos curiosidade em tudo: até de descobrir como foi possível transformar um antigo cabeleireiro, em que apenas parecia dotado de uma única sala repleta de secadores, num arrojado apartamento, de múltiplos cenários. Mas a partir daí, é a nossa linguagem como fotógrafo que permanece.

 

8.    Como prepara e executa os seus trabalhos? Há muito estudo prévio ou geralmente é levado pela empatia com a obra no terreno?

 Há as duas coisas, mas sem dúvida nenhuma que o trabalho sai enriquecido pela empatia que nos transmite. E acaba por ser perfeito quando a obra tem a força maior de nos surpreender. É esse o impacto que sinto sempre que fotografo Siza Vieira. Por mais conhecida que seja a sua obra, é dos poucos autores que é capaz de se reinventar em cada novo projecto.  No seu mais recente trabalho - o Teatro Auditório de Llinars del Vallès (Barcelona) - tive oportunidade de passar longas horas, praticamente sozinho, em plena contemplação de cada detalhe.

 

9.    A imagem aérea abriu novas e inusitadas perspectivas, há novas experiências, o vídeo uma tentação. Como encara todas essas ferramentas e possibilidades no evoluir da sua profissão?

Sem dúvida nenhuma que a imagem aérea veio dar uma nova dimensão à fotografia de arquitectura. E tanto que ainda mal se ouvia falar de drones em Portugal e já tinha adquirido o primeiro. Foi um passo de gigante num universo ainda pouco explorado. É notável como uma obra, como a Piscinas das Marés, do início da carreira de Siza Vieira, e por isso tão conhecida, ganhou uma nova dimensão depois de vista a mais de 100 metros de altura. E a replicação, que de repente se transformou em ícone, fez com que me fosse atribuído o prémio ARCAID Architectural Photography, na categoria Sense of Place.

 

10.  Entre os fotógrafos de arquitectura quais os que mais admira? Foi influenciado por alguns deles, contemporâneos ou não?

O Julius Shulman é uma referência incontornável. Um verdadeiro mestre. Assim como Ezra Stoller. Estas são para mim as maiores referências da fotografia de arquitectura. Admiro também o trabalho de Iwaan Baan. Gosto de acompanhar o percurso quase diário, através do Instagram, daquilo que fotografa, dando-nos o privilégio de estar a assistir à cena sentados no melhor camarote.