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quarta-feira, 27 de maio de 2020
Sustentabilidade

Casas Low Cost utilizando a terra

9 de abril de 2016

A construção sustentável é uma necessidade prioritária e os materiais tradicionais voltaram a ganhar importância. A terra enquanto material construtivo é quase tão antigo como o Homem e hoje, pretende conquistar o lugar perdido. Em Portugal, são alguns os arquitectos que utilizam este material milenar.

E se pensa que a construção em taipa é limitativo quanto à criatividade e modernidade dos projectos, desengane-se. Com este material pode construir a casa moderna que sempre sonhou com a vantagem de a conseguir a preços mais acessíveis.

O arquitecto Alexandre Bastos revela que ao contrário de outrora, hoje constrói-se em terra por opção e não por necessidade. “Esta diferença marca o sentido da utopia, tanto mais que a taipa, as paredes, normalmente apenas as exteriores, representam 10% a 14% da totalidade da obra, e o seu custo é metade de uma obra convencional visto que não tem pilares, sapatas, vigas de fundação, lintel normal, parede dupla de tijolo com isolante, nem caleiras para as humidade, nem reboco porventura em uma das faces da parede. O que significa se a construção fosse do modo convencional demoraria muito mais tempo”, explica o arquitecto.

A verdadeira construção sustentável

Também o arquitecto Henrique Schreck, há muitos anos que utiliza este material nos seus projectos e explica o desafio de construir em terra. Na sua opinião são três: Primeiro, romper com métodos instalados na sociedade que tem recorrido há décadas à indústria sem ter em conta métodos ecológicos de sustentabilidade. Sendo o cimento e o plástico (ou derivados do petróleo) poluentes na sua elaboração e sobretudo no seu final de vida. “Onde vamos colocar todo o cimento que usamos após a sua destruição? Este é verdadeiramente o primeiro grande desafio”, alerta.

“O segundo consiste no facto de reactivar uma técnica que, aqui onde trabalho, tinha sido abandonada há décadas com todas as implicações de esquecimento e falta de conhecimento de como fazer que isso implicou - estudar, formar operários, saber escolher as terras adequadas, entre outros aspectos. O terceiro desafio, e não menos importante, é o de adequar esta técnica aos tempos actuais, quer seja na linguagem arquitectónica, quer na satisfação dos níveis de conforto e segurança”, assegura.

Quanto às dificuldades Henrique Schreck menciona o facto de não se poder por exemplo fazer pontes em terra ou arranha-céus em terra.

Um T3 poderá custar 75.000 euros

Não existem dúvidas que teoricamente construir em terra é mais económico, pois o material principal não é comprado, a mão-de-obra necessária consegue tempos de execução menores e não há os transportes necessários a outras técnicas.

“A não ser em construções luxuosas, as construções em terra nunca ultrapassam os preços das construções em betão. Um T3, executado em sistema de auto construção poderá rondar os 75.000 euros”, revela o arquitecto.

O potencial de Portugal na utilização deste material é vastíssimo, “onde existe barro, pode-se recorrer à taipa e ao adobe, ou ao tabique. Onde ele não existe, pode-se recorrer ao existente - a pedra, as plantas, a madeira, etc. Em Portugal está-se a verificar um enorme interesse e desenvolvimento destas técnicas, tendo já chegado às Universidades e laboratórios, que estão a desenvolver grandes esforços neste sentido”, refere o arquitecto.

Uma casa que volta à terra depois do seu ciclo de vida

Henrique Schreck salienta ainda que a construção mais sustentável possível é sem dúvida a que recorre aos materiais que a natureza põe ao nosso dispor, que requer o mínimo de energia e consumo de CO2, que não exige transporte e que após a sua existência volta para onde veio. “As casas em taipa, por exemplo, após serem destruídas, quer por falta de manutenção, quer por destruição directa, voltam para a terra que lhe deu origem e podem de novo servir para fazer crescer plantas, como se nada tivesse acontecido”, adianta.

Também Alexandre Bastos reforça a ideia da liberdade plena e a grande mobilidade da taipa, de a modificar para as gerações vindouras, e com um material eterno, fazer o efémero, e ainda aproveitar o mesmo material a zero euros, fazendo-o renascer.

A nova geração consciente

Alexandre Bastos é de opinião que algo novo está a acontecer na forma como se olha para estes materiais e para o futuro da construção. “Já é altura de dizer que neste momento está em curso um movimento de arquitectura que não se baseia apenas em aspectos formais e na expressividade, transcende-os, nasce na ruralidade nos finais do séc. XX, princípios do séc. XXI, mas vem das cidades, das culturas ditas eruditas, que vão preservar a memória do tempo, do anónimo, dos diferentes extractos socioeconómicos, socioculturais, que preservam o ambiente, que são preocupadas, pouco consumistas, enfim um movimento cívico, consciente a que me é indiferente se é por moda ou não”, conclui.

Material antigo, arquitectura moderna

Mas mais do que qualquer outro factor, o desempenho ecológico hoje ganha cada vez mais importância. Na opinião do arquitecto Rui Graça, os benefícios ecológicos estão entre os mais significativos para a revitalização da taipa. Adepto da construção em taipa e promotor do projecto Naturarte, um turismo rural, em pleno Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina e onde a arquitectura aliou a modernidade à tradição e à própria natureza, com a utilização da terra do local para construir paredes de taipa, Rui Graça, assegura que estes benefícios reflectem-se na economia energética do processo de construção, bem como na economia energética na utilização dos edifícios. «A taipa garante uma significativa inércia térmica aos espaços interiores, por ser um material natural e com características não poluentes».

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